Outras Cavernas

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A prisão em realidades absolutas não é novidade para o homem, tampouco se restringe à filosofia e/ou religião. A busca pela verdade que resolveria a equação da vida foi o alvo, e até causa de ruína, de pensadores por toda a história. A filosofia grega, berço maior da busca racional pela verdade, em todas as suas fases, esboçou ideias sobre o que seria, como seria, quando viria e quem conseguiria decifrá-la. É certo que poucas respostas conseguimos, mas alguns esboços valem a pena ser aplicados mesmo em nossa contemporaneidade.

Platão, em seu livro A República, desenvolve a tão famosa alegoria da caverna, que retrata, em síntese, a vida de homens que viviam voltados para o fundo de uma caverna escura, e toda sua realidade se restringia às sombras que a luz projetava na parede à sua frente. Eis que, inesperadamente, alguém resolve olhar para trás e enxergar a luz! De início, quase cegou de tanta luminosidade, e ficou receoso com aquilo tudo, mas a medida que os olhos foram se acostumando, a descoberta de novas cores e formas o vislumbrou.

Essa simples parábola é uma das bases mais sólidas da construção filosófica platonista, que desenvolveu a dicotomia entre o mundo das ideias e o mundo das coisas, onde o primeiro continha a verdade e o segundo a realidade sensorial, ideia com forte influência da filosofia pré-socrática de Parmênides. Ora, histórias em parábolas nos permitem contrastar com a realidade, podemos nos inserir na narrativa e vivenciar o que o autor queria dizer.

Basta colocar o mito em nossa atualidade para perceber que as cavernas só mudaram de nome. No mundo do enlatado, do fast food, pensar virou ousadia, e às vezes até crime. Toda forma de questionamento ameaça as bases do absoluto, pois todo relativismo têm de ser suprimido para que ele se instaure. Pensar para quê, quando posso comprar as ideias de quem pensa por mim? O amor à escravidão talvez seja hoje a grande patologia da filosofia pós-moderna. O mundo desistiu de pensar! Vivemos dos farelos de ideologia vendidos pelo absoluto, cultuamos a ignorância, nos aconchegamos no falso.

É até compreensível, apesar de inaceitável, o porquê da preferência pelas sombras. Elas são seguras, me vendem a falsa ideia de vida mais fácil, com menos complicações. Olhar para trás chega mesmo a ser uma experiência aterrorizante e até traumática. Como, agora, remexer os supedâneos da existência? Para uma visão escurecida, se acostumar com uma luz cegante traz a pior das dores. Felizmente, basta um pouco de persistência para descobrir uma infinidade de outras coisas e perceber como valeu a pena. Acertou Jesus quando disse que a verdade nos libertaria. Retirar as escamas dos olhos pode doer, mas com certeza a recompensa paga o preço!

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