Universo Paralelo

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Havia um reino comandado por um grande e sábio homem. Sua extensão ia além da linha do horizonte, e sua magnitude era contemplada por todos os lados. Diziam as lendas que fora o próprio rei quem projetara cada centímetro, e isso ocasionou o nome pelo qual era conhecido: O Grande Arquiteto. Não se sabe ao certo de onde ele veio, mas as músicas e poemas trovejadas anunciavam seu êxito em planejar uma terra próspera e que se sobressairia à todos os reinos da terra. O reino vivera anos de glória, suas fortunas se acumulavam e sua extensão se multiplicava. Seus vizinhos tremiam com a simples pronúncia de seu nome, e sua imponência inspirava jovens príncipes mundo afora. Era realmente bom.

Mas esse sábio rei ficou ganancioso, e sua ânsia por poder fora deixando-o doente. Desejava agora adoração extrema, devoção total, e não admitia questionamentos. As leis foram ficando mais severas, as restrições passaram a condenar todos os melindres de seu ego inflado. Os impostos subiram também, ao ponto de que os agora verdadeiramente chamado súditos não tinham mais direito à nenhuma posse, e a miséria foi se alastrando onde antes havia fartura. Não satisfeito, o rei instaurou uma política bélica extremista: Não admitia mais que houvesse outros reis, senão ele. Destruiu, dizimou e se apossou dos seus vizinhos, dos vizinhos deles, e assim por diante. Era agora temido não por sua bravura e sabedoria, mas pela sua instabilidade e força. Pouco a pouco, os que antes eram felizes habitantes, agora eram servos, à postos para servir os requisitos absurdos do governante.

É claro que pessoas se insurgiram contra o déspota. Clamavam pelas ruas por ajuda para resistir à tirania. Mas quem, em sã consciência, desafiaria o exército real, que não tinha dó nem mesmo de infantes? De tanta opressão e medo, com o girar do relógio, os servos passaram a entender, e até gostar de sua posição. Vez ou outra o rei negociava favores em troca de adoração, e se deleitava nos sacrifícios feitos em seu nome. Começaram a agradecer pela segurança oferecida pelo monarca em troca de algo tão pequeno quanto suas vidas. Parecia um bom negócio renunciá-las pelo bem maior do reino. O tirano, enfim, tinha o controle total da existência de seus súditos: determinava quem casava com quem, quando, quem trabalhava aonde, o que podiam vestir, comer, se deveriam rir ou chorar, onde podiam se reunir, como precisavam se portar, falar. Todas as coisas eram razões para adorar o seu nome.

Mas o poder se apoderou de sua mente, e taxativamente decretou: Vida e morte dependiam de suas mãos. O ditador se esbanjava em poder sentenciar a morte de qualquer um que desobedecesse a menor de suas regras. Bastava uma calça diferente e fatalmente o machado desceria. Seu exército jogava pragas ao seu comando, levava filhos para que os pais o adorassem, retirava o alimento para provar o seu discurso: A honra e a glória eram dele, e de mais ninguém. Seu coração se banhava de pedantismo, poder, ganância e luxúria. A vida era seu parque de diversões. Em uma estratégia certeira, o Rei (agora sempre com a inicial maiúscula) optou por manter a vida de alguns transgressores. – Vossa Graça, fostes misericordioso para comigo, e para sempre te adorarei por isto, diziam eles, ludibriados.

As ínfimas bençãos reais eram razão para a mais completa devoção. O Rei era justo, mas também misericordioso, e alguns alcançavam sua graça. – E os que não receberam favor algum? diziam outros. A resposta, é claro, era única: “Eles mereceram, afrontaram a lei real e agora estão pagando o preço.”. A inquisição passara às mãos dos súditos, que agora, eles mesmos, se encarregavam de conduzir a Justiça do Rei. Perseguiram, açoitaram, expulsaram e queimaram os insurgentes. Um bom reino precisava de ordem e controle, e a coerção era um instrumento aceitável para tanto. Seria combatida qualquer descumprimento de seus preceitos normativos, com violência se necessário. O Rei sorria em seu palácio, avistando da janela a infame perseguição.

Mas o Rei ficou velho e doente. Médicos, curandeiros e magos foram mortos por não solucionarem a patologia que pulsava em suas veias. Temeroso para não se mostrar fraco, o Rei se enclausurou em seu quarto e elegeu homens que se encarregariam de dispensar a Ordem Real. As vozes eram dos servos, mas as palavras fluíam dEle. Seus mensageiros beberam arrogância por deterem o discurso do magnata, e agora reproduziam a devoção também em seus nomes. A face do Rei agora, necessariamente, tinha a face deles. As ordens do adoentado passavam por seu filtro, e não deixariam que o velho gagá levasse todo crédito! Fariam questão de difundir o seu nome, e de propagar as suas novas mensagens.

(Continua…)

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