Fome de Empatia

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     Confesso que existe um abismo entre mim e quem talvez nunca possa ler esse texto. Sou branco, de classe média, estudo em faculdade particular e trabalho no negócio da família. Venho de uma tradição ortodoxa, arrumadinha, politicamente correta. Não sou capaz de aferir sofrimento de quem não teve as mínimas oportunidades como eu. Não ousaria me colocar no lugar de quem desconhece beleza na vida. Como criança, desfaleço ao tentar entender os porquês de uma realidade tão desigual; não me atrevo a dar respostas curtas para questões oceânicas. O x não seria descoberto numa mera equação de primeiro grau.

     Me vejo entretido na sede de conhecimento, imerso em filosofia grega e teologia pós-moderna. Paro e reflito: se tenho tempo para pensar, é porque não escuto a barriga gritando mais alto. A grande questão para minha fome é decidir o quê, exatamente, eu gostaria de comer hoje. Pensar assim me faz despertar para nossa conjuntura atual: existem necessidades mais urgentes que minhas opiniões ensimesmadas. Enquanto crianças são abusadas sexualmente, pessoas morrem de fome, negros sustentam preconceito, homossexuais são erradicados e pobres são marginalizados, pouco espaço sobra para a cor do papel-de-parede e o sapato novo que almejo. Não consigo aceitar que a cor, nacionalidade, orientação sexual e principalmente a religião de cada um tenham pauta preferencial à de locais onde a expectativa de vida está abaixo dos 30 anos. Pouco importa se o deus de lá é rosa ou se seus cabelos não são loiros: humanidade precede conceito; compaixão antecede axioma; amor supera justiça. O mundo carece de expressões de graça, e não do proselitismo de nosso gueto.

     Quão grandes ficarão as escamas que cobrem nossos olhos? Leio as notícias e a opinião popular, e me falta capacidade para entender o debate. Fala-se de fé, conservadorismo, vontade majoritária. Criam-se rótulos, defende-se dogmas. Morremos ou matamos para salvar o sistema. Tornamos processos verdadeiros devoradores de gente. Iconoclastia generalizada e preconceito enrustido são os grandes propulsores do nosso discurso. Ansiamos por uma verdadeira autofagia que abarque nossa visão meritocrática de vida. São palavras difíceis que no final virão erradicar quem usa jornal apenas como cobertor…

     Olhar para esse abismo me causa vertigem. É paradoxal apreender que estamos no mesmo mundo, mas inseridos em mundos distintos. Espero ser sincero ao dizer que as lágrimas caem em cima de minha própria frieza. Caminho por calçadas que outros chamam de lar. Escrevo, na esperança de que as gotas vertidas reguem um coração mais empático. Compartilho, no desejo profundo de despertar em outrem a necessidade urgente de amar. Termino esse texto como quem quebra o vidro da emergência, e espera, veementemente, que não seja tarde demais para conter o fogo.

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