Paratodos

Chico-Buarque_

     Vai meu irmão, ouça um bom conselho: É realmente inútil dormir que a dor não passa. O meu choro aqui pode até ser coisa pequena, mas é roubado a duras penas do coração. A Rita, levou meu sorriso no sorriso dela… Ahh, eu a amo tanto, e de tanto amar, acho que ela é bonita. Meus amigos me dizem que não é por estar na minha presença, mas eu vou mal demais. E eu acredito, pois vivo escutando “deixe a morena com a gente”. Sempre disse a ela que ela iria me seguir aonde quer que eu vá, mas agora já não tenho tanta certeza. Talvez seja porque estou desempregado…Agora, só faço escutar: “Vai trabalhar vagabundo”. Mas que há de mal em ficar fazendo samba?

     E por falar em samba, eu hoje fiz um samba bem pra frente, dizendo realmente o que é que eu acho! Foi pra ela, aliás…Jájá falarei dele. Mas falando do meu desemprego, passo na rua e escuto: “Eis o malandro na praça outra vez”…Quando me perguntam o que ando fazendo da vida, respondo irônicamente que eu faço samba e amor até mais tarde, e tenho muito mais o que fazer. Eu e meus amigos fazemos hora, fazemos fila na vila no meio-dia, só pra ver Maria, mas ainda não esqueci a Rita. Ontem, preparei uma carta pra ela que dizia: “Quando você me deixou meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem. Quis morrer de ciúmes, quase enlouqueci, mas depois como, era de costume, obedeci”. Mas não posso negar que ainda sofro esta tamanha perda.

     Por isso que até digo pra você  que me lê que deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa…E qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água! Já tentaram me alegrar, ontem de noite um amigo meu até bateu à porta e me disse para não chorar ainda que ele tinha um violão e íamos cantar, e se a felicidade for de samba podia ficar! Mas pra quê cantar, se só em cantar já me lembro dela? Lembro que todos os dias ela fazia tudo sempre igual, me sacodia às 6 horas da manhã. Me sorria um sorriso pontual e me beijava com a boca de hortelã! Queria que ela tivesse mirado no exemplo daquelas mulheres de Atenas, que viviam pelos seus maridos. Estou agora esperando por ela como Pedro Pedreiro espera o trem…Esperando, esperando, esperando…

     E voltando ao meu samba, fiz um samba especialmente pra ela, que falava de quando a gente se conheceu. Começava assim: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar cantando coisas de amor.”. Mas acho que ela não ouviu…Até disse na carta: Você não ouviu o samba que eu lhe trouxe. Ai eu lhe trouxe rosas, ai eu lhe trouxe doces. Aliás, fiz seu doce predileto, com açúcar e com afeto. Mas nada dela querer, éé… Parece que Madalena foi pro mar e eu fiquei a ver navios…Mas ainda espero poder dizer a ela: Vamos pra Bahia dengo, vamos ver o sol nascer, vamos sair na bateria, deixe de chilique, deixe de siricotico. Porque agora eu era um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim!

E ainda me dizem que a vida não é só a poesia de Chico Buarque!

     P.S: Escrevi esse texto em 2008. Certamente, poderia fazer um melhor hoje. Todavia, achei por bem mantê-lo intacto. É a minha homenagem pelos seus 70 anos. Parabéns, Chico.

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