Provisoriamente, eu.

     Metamorfose

     Dentre os defeitos que mais repudio, seja em mim ou seja em outrem, certamente está o posicionamento postado em cima de muros. Detesto estar, bem como detesto quem esteja, concomitantemente, nos dois lados da mesma moeda. Isso porque esse é o lugar típico dos bajuladores, manipulados e covardes. Não admito quem repete jargões proferidos por líderes, sem ao menos refletir alguns segundos no significado. Ainda sou pego incauto por quem é insensato ao ponto de seguir dogmas que se fragilbilizam com simples interrogações.

     Vive debalde quem foge da raia e não dá a cara a tapa por posicionamentos, desde que estes militem a favor da ética, do amor e da tolerância. Por isso, nunca repeti tanto os dizeres do filósofo austríaco Karl Popper, que propõe:

“Menos conhecido é o paradoxo da tolerância [em oposição ao paradoxo da liberdade]. Tolerância ilimitada leva precisamente ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra as investidas da intolerância, então os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. – nesta formulação, eu não sugiro, por exemplo, que devemos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; contanto que possamos contê-las pela argumentação racional e mantê-las sob controle da opinião pública, supressão seria certamente imprudente. Mas devemos reivindicar o direito de suprimi-las, se necessário mesmo pela força; porque elas podem muito bem não estarem preparadas para nos encontrar no nível de argumentação racional, mas começarem por denunciar toda argumentação; elas podem proibir seus seguidores de ouvir argumentação racional, porque é enganosa, e ensiná-los a responder argumentos pelos punhos ou pistolas. Nós devemos então reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante. Nós devemos reivindicar que qualquer movimento pregando intolerância se põe por conta própria fora da lei, e devemos considerar incitamento à intolerância e perseguição como [atos] criminais, do mesmo jeito que devemos considerar incitamento a assassinato ou sequestro ou o reaparecimento do tráfico escravo como criminais.”

     Defender ideias só deságua na intolerância se não as consideramos provisórias, incompletas. Infelizmente, quem vive em cima do muro sempre se mostra penso para o lado obscuro do pensamento. Ao manter o pé atrás, sua fragilidade é escancarada, e vulnerabiliza à manipulação. Dessa forma, o intelecto se mantém sempre raso, afinal, a profundidade é sempre vista como o monstro que está prestes a devorá-lo.

     Convivi, relativamente, muito tempo entre pessoas assim. Dentro de uma instituição que insiste em manipular com lógicas simplórias [e quase sempre revestidas de desumanidade], fui deveras tolhido pela necessidade de questionar. As respostas nunca me satisfizeram, pois bastava algumas réplicas para perceber quão carente de sentido era tudo aquilo. ‘Não pode isso, não pode aquilo’. – Por que? insistia eu, como a criança de 7 anos que não entende a cor do céu. Como é de se esperar, fui instruído incontáveis vezes que estava duvidando de Deus, ou que aquilo iria me levar à perder a fé. Alimentei, portanto, uma fé que meu sobrinho esfacelaria em alguns minutos.

     Talvez a mais preocupante característica destes tais seja a tendência de atacar pessoas. Enquanto o diálogo consagra a refutação de ideias, os rasos, por assim o serem, só alcançam a pessoa. Como disse Mário de Andrade: “As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”. Discussões se tornam praça de guerra para quem não se dá o trabalho de entender o que acabou de ouvir antes de repetir. O efeito do compartilhamento do facebook é apenas uma extensão dos salões das igrejas e dos partidos políticos. Alienação, nesse nível, nunca foi novidade.

     Assim compreendo a revelação do apóstolo João no Apocalipse, que de forma mais poética e amplificada, vê o anjo afirmar que o criador vomitaria os mornos, quando era preferível até mesmo que se fosse frio. Tal qual o retrato divino escatológico, tenho por bem vomitar quem teme opinião. Não serei tolhido pelas gabolices de quem acredita deter a resposta inexorável da vida. Não partilharei a mesa com quem se amedontra diante das ameaças alheias. Não receberei os beijos secos dos judas, sempre covardes, a postos para me trocar por moedas de pratas. Serei eu, em constante mutação, ansiando evolução, tanto hoje quanto amanhã.

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