Paradoxo Cartesiano

     Renoir

     Morar em um Estado predominantemente indígena, e consequentemente, estudar, ainda que pouco, sua forma de viver, me apresentou novas lentes para ver o mundo. O caso da Raposa da Serra do Sol, com tantas nuances jurídicas que nem merecem ser mencionadas, iluminou um contraste interessante: enquanto latifundiários reclamavam perdas econômicas, índios recebiam vida. Enquanto terra, para nós, é sinônimo de cifrão, para eles é indissociavelmente vida, deus; a terra é uma extensão deles próprios. Daí a dificuldade enorme dos que dali foram expulsos, e também dos que defendem a ideia capitalista de que aqueles deveriam permanecer pela rizicultura, importante para o estado, de entender o sentido daquilo tudo.

     Outras lentes também me foram dadas ao conhecer a fundo a história de Gandhi. O ‘Bapu’ foi uma centelha divina num mundo de trevas, e em mesmo o aço forte foi capaz de quebrar suas atitudes de amor. Mahatma entendeu que humanidade precede filosofia. Pouco importava para ele se cristão, muçulmano ou hindu, contanto que se pagasse o mal com o bem. Diante dos devaneios de uma massa exasperada, Gandhi se manteve em jejum absoluto, apanhou, se fez prisioneiro, e renunciou a aparência do mal. Fora esse o mesmo mal, demônio, ou seja lá o que você goste de chamar, que o assassinou friamente. Tal qual o Cristo na cruz, o inocente Gandhiji padeceu enquanto se dirigia à uma missão de paz no Paquistão. Ainda assim, como ele bem cria, o amor venceu e sua mensagem ainda encontra corações onde possa germinar.

     Quero chegar, então, no paradoxo cartesiano. Isto é, o modelo categoricamente ocidental de encaixes, gavetas, armários. Sistematizamos, dividimos, cada coisa em seu devido lugar. Encontra-se arraigado em nosso ser, somos cartesianos de forma ontológica. Assim, ao começar a militar pela desconstrução de verdades absolutas, pela quebra de muros dogmáticos, pela fuga de axiomas empoeirados, precisei encontrar uma solução para os meus próprios baús. Não poderia, concomitantemente, derrubar tijolos e cimentar outros.

     Mas quem sou eu? Caucasiano, ocidental, descendente de europeus, cristão. Não nego a mim mesmo. Precisei compreender que, provavelmente, não conseguirei me desvencilhar de minhas lógicas ao ponto de enxergar a vida num plano horizontal, tal qual os indígenas. Por mais que tente, frequentemente insisto em afirmar que nunca, sempre, não, sim. Defendo ideias com convicção, me posiciono, organizo sinapses, construo minhas próprias trilhas na floresta do mistério.

     Duas soluções foram encontradas para não soçobrar em absolutismos mais uma vez: a primeira foi o descobrimento do provisório. Admitir molduras rechaçáveis, considerar metamorfoses, me fez dar um passo atrás na limítrofe divisão entre absoluto e relativo. Tal qual Renato Russo, ‘não sou mais tão criança ao ponto de saber tudo‘. Hoje, repenso ideias, valores, definições, conceitos. Critico minhas próprias críticas. Basta argumentos éticos, sinceros e amorosos para combater meus ceticismos. Mudarei, sem medo algum, qualquer posicionamento que se demonstra obsoleto segundo os critérios da graça, compaixão e comunhão.

     A segunda solução, num consectário lógico, se fez no amor. Se minha ocidentalidade enraizada clama por caixotes, os aceitarei se revestidos de amor. Se preciso conceber molduras, ainda que provisórias, estas devem conter telas amorosas. Se, porventura, cair em absolutismo, sempre pagão, o sacralizarei com luz ágape. Aceitarei limitações, desde que estas sejam a ilimitação plena do amor. Por humano, imperfeito, hermético, me contentarei com sectarismo desde que ele habite numa, mesmo que ínfima, parcela de amor. Meus sacramentos, segmentos-de-reta, serão admitidos se parte da reta infinita do amor mais pleno. Defenderei o amor, mesmo que fraco, pequeno, pouco. Serei ele, enquanto for.

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