Quintessência

Quintessência

     Poesia é a pobre maneira de traduzir em palavras os mistérios da vida e da morte. Estupefatos, reduzimos a letras o incompreensível. Ora, toda palavra é mera fração, fragmento, sempre incompletas, nunca acabadas. Incapazes de abarcar as revelações sensoriais, nos contentamos com ínfimas definições, sentenciamos o inefável. Todo poeta soçobra em angústia, decai em descontentamento. Nem seus olhos, boca e mãos se mostram suficientes para compreender, seja a flor que desabrocha em meio à aridez, seja a onda avassaladora de concreto. Inexplicavelmente, o artista há de conviver com o tormento de ser e não conseguir dizer tudo aquilo que é e não deixará de ser.

     Toda pena é pouca para descrever o que está posto. Vocabulários infinitos não dariam conta de traduzir a inexorável pequenez da humanidade perante o universo. Filosofias e tecnologias caducam antes de deduzir a fórmula dos porquês. Nem matemáticos nem teólogos equacionarão a questão fundamental da vida, do universo, e tudo mais. Teoremas e rotulações cairão por terra sempre que tentarem encaixotar a liberdade do vento que sopra. As ciências, muito altivas, hão de desistir de segmentar as incertezas, as mutações e os desdobramentos tão presentes na inconstante existência. Empobrecidos, imperfeitos, cientistas recorrerão aos artistas para alimentar nossa sede de beleza.

     Reafirmo: a poesia da vida, holística, não se resume à conjunções ortográficas e predefinições estéticas, assaz herméticas. Métricas e rimas, por mais rígidas e tecnicamente montadas, não transmitirão com perfeição a mensagem sussurrada à sensibilidade do escritor. Pincel e tinta não construirão, em tela, o que nem os olhos são capazes de enxergar. Não vislumbraremos esculturas, afrescos, poemas, canções nem películas mais transcendentais que as presentes nas imanências obscuras, encobertas, encavernadas do coração. Nem o sopro, nem as ondas, nem os picos, nem o pôr-do-sol, nem mesmo o romper do casulo a surgir borboleta, serão comunicados com exatidão pelas mãos dos pobres e atormentados artistas.

     Todavia, há de se reconhecer seu valor. O que nos falta em capacidade para transportar a perfeição, nos sobra em criatividade para inundar a alma. Só o poeta será capaz de fornecer, ainda que pouco, o bálsamo cicatrizante dos nossos abismos. Quando a ciência e as racionalizações falharem em saciar nossa fome de formosura, só os poetas preencherão nossas frestas com o lírio da vida. Ao fugirmos do cartesiano, do gueto, do hermético, e destruirmos as muralhas da razão, encontraremos abrigo no doce som emitido pela sensibilidade inerente à pena. Ainda que em forma de retalhos, a salvação para a feiúra escorre nas entrelinhas do escrito, no subentendido das metáforas, na interpretação das parábolas.

     Quem almeja alcançar o píncaro da transcendência há de se deixar levar pelo fluir das águas de Vinícius, Chico, Noel e Jobim. Da corrente de Saramago, Tolkien, Lewis, Tolstoi, Drummond e Virgílio. Do conduzir de Michelangelo, Rafael, Da Vinci, Renoir, Rembrandt, Dalí e Van Gogh. Da incomensurável levitação de Bach, Mozart, Beethovem e Villa-Lobos. Dos igualmente transportadores Shakespeare, Lispector, Austen, Gabo, V. Hugo, Augusto dos Anjos e Machado de Assis. Dos exemplos de Mandela, Madre Teresa, Gandhi, Luther King Jr., Zumbi e Tutu. Nas imagens reveladoras de Cartier-Bresson, Irving Penn e João Bittar.

Nas mãos desses, aceito a imperfeição como melhor caminho para a salvação.

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