Entre a Cruz e a Espada

Tanques

Jesus Morreu na Cruz. Traído por amigos, entregue à morte por seu próprio povo, no calvário o Cristo, que suara sangue na iminência da prisão, que fora torturado e humilhado por soldados romanos, aos deleites dos líderes religiosos judeus, encerrou sua história com pregos nas mãos. Essa, todavia, não fora a primeira, tampouco a última, vez que o próprio Deus enfrentou a morte por consequência da maldade e da crueldade humana, principalmente dos que invocavam à Deus.

Em Jericó, Deus assistiu as muralhas ruírem e o sangue de seus irmãos e irmãs manchar as ruas. Ao contrário do que comumente se pensa, Deus não embainhava espada, mas sim, era perfurado pela lâmina fria nas mãos de quem se julgava detentor da vontade divina. Muito antes de Jesus vir à terra, seu povo já havia assassinado o próprio Deus, como viria a se repetir.

Na Idade Média, fogueiras e torturas massacraram os que questionavam as lógicas católicas sobre vida, fé e sociedade. Com impassividade, comunicadores da fé cristã sequer franziam a testa ao expurgar a vida dos supostos ‘inimigos de Deus’. Mal sabiam que o Cristo que pregavam ardia vivo e tornava cinzas perante seus próprios olhos. Cegos de altivez, não enxergaram a quem realmente estavam assassinando.

Cruzadas e Guerras Santas foram deflagradas pelos que se intitulavam legítimos donos da terra sagrada. Com cruz em um braço e espada no outro se semeava morte sem fim. A terra que se dizia santa jamais se purificaria após os massacres de que foi vítima. Em guerras assim, Deus não escolhe lados, não vence nem exalta ninguém. Na batalha ele sempre sai derrotado de todos os lados, morto, transpassado, acabado.

Campanhas Colonialistas tanto na América, quanto na África, foram responsáveis pela extinção de culturas milenares. Aztecas, Incas e Maias, detentores de uma produção cultural e tecnológica invejável, se transformaram em meras páginas nos livros de história. Nos sobraram ínfimos monumentos para refletir parcela de sua grandiosidade. Europeus, todos de origem cristã, com a benção papal e apoio direto do clero, acharam por bem a escravatura e genocídio de quem vivia em paz. O Deus a quem, na sua visão torpe de fé, ‘consagravam’ aquela terra, jazia morto no chão, e nem toda água benta do mundo seria capaz de sacralizar o verdadeiro inferno que as caravelas trouxeram.

Em Auschwitz, o holocausto que hoje choca o mundo, mas que na época tantos se uniram ao côro nazi-fascista, e outros fizeram vista grossa, realizou o massacre-mor de nossa história moderna. Câmaras de gás e sessões de fuzilamento nos campos de concentração deram origem à filmes e livros que me fazem chorar copiosamente. Onde estava Deus naquele momento? perguntaram-se, e ainda se perguntam, muitos. Indubitavelmente, Deus estava lá, de roupas listradas e cabelos raspados, clamando por misericórdia, mas inexplicavelmente caindo morto todas as vezes que a esperança tornava a nascer. Castigo divino é o nome que os homens dão para justificar sua desumanidade para com o próprio Deus.

 Na Tsunami, não foi a mão de Deus que moveu as ondas avassaladoras. No meio ao caos, aos corpos que boiavam, e o cenário desolador, Deus estava lá em diversas crianças que gritavam diante da implacável realidade em que estavam inseridas. Atônito, Deus buscou abrigo, procurou familiares, ajudou incapazes. Deus chorou a tragédia que grego algum jamais conseguiu encenar. Não haviam planos, projetos nem finalidades nessas catástrofes: apenas dor, perda e sofrimento. O céu estava escuro naqueles dias.

Em Gaza, hoje, vejo esse mesmo Deus tão proscrito, tão decaído, tão humilhado, no rosto das crianças empilhadas pelo massacre israelita. Mais uma vez, os que carregam a espada ‘em nome de deus’ sequer percebem que é esse deus o alvo de suas ogivas. Fora das muradas, ele se encontra no bolsão de miséria dos palestinos, jogados à própria sorte, sem água, sem energia, nem mesmo pátria. Cada explosão esfacela o deus que não é cristão, nem judeu, tampouco muçulmano. Nenhum grupo de extermínio pode se julgar executor da vontade divina. Ninguém que convalide com o ódio, intolerância e violência reflete o Deus de amor, perdão e misericórdia. Em Israel, hoje, não há Deus algum, pois ele está morto na faixa.

Toda violência contra vida, a liberdade e o amor é também contra Deus. Toda arma apontada mira o céu. Todo corpo que cai morto é o próprio Cristo.

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5 comentários sobre “Entre a Cruz e a Espada

  1. E o ser humano segue fantasiando para fugir da realidade cruel.
    No seu texto você não foge à regra.
    Pinta o sanguinário, mesquinho e malévolo jeová (ora o indefeso cristo) como uma vítima dos cruéis humanos.
    Não adianta, meu caro, não dá pra negar que judeus e cristãos sempre seguiram e cumpriram fielmente os ensinos do seu deus sadomasoquista, que, entre outras tantas atrocidades, ordenou a morte de centenas e centenas de homens, mulheres e crianças para apenas presentear seus súditos.
    Agora você o que pintar como proscrito e humilhado e vítima dos seus súditos.
    Certamente você não está se referindo ao deus injusto e sedento de sangue (inclusive de animais) retratado na bíblia, muito menos de seu insosso e afeminado alterego messiânico.

    1. Primeiramente, agradeço a leitura do texto e que você esteja seguindo as publicações desse blog.

      Sobre seu comentário, me parece que você não compreendeu minhas propostas. O deus ao qual você se refere como sadomasoquista, sanguinário e injusto certamente não é o qual eu acredito. Sou ateu desse.

      A grande metáfora desse texto, a qual quis passar, foi afirmar que o deus que os autores dessas barbáries pensavam seguir não era verdadeiro. Era uma percepção errônea e completamente distorcida do Deus de amor encarnado em Jesus Cristo.

      Agora, sobre o fato de você julgar Jesus como um ‘alterego insosso e afeminado’ já não tenho muito a falar sobre isso. Discordo, pontualmente, pois ainda que não divinizasse a figura de Jesus, o teria ainda como maior que Gandhi, Mandela, M. Luther King Jr., entre outros, pela grandiosidade de sua mensagem de amor é por tê-la vivido até as últimas consequências.

      Espero que agora você tenha compreendido melhor o que quis dizer. Agradeço novamente.

  2. Valeu a atenção.
    Gostei da honestidade, da coragem…mas sigo não te entendendo: ateu e teísta com relação a um único e mesmo deus.
    Mas vá lá… somos todos absurdamente humanos.
    Quanto a seguir o blog, sou assim mesmo…basta abrir a porta… tratar bem… e vou logo entrando e ficando.
    Abraço

    1. Basta opinar sem agressão, como você fez. Responderei sempre. Quanto ao que você ainda não entendeu, tentarei explicar melhor:

      Sou ateu de vários deuses. Isso é também uma força de expressão. O que quero dizer é que nego que o Deus evidenciado em Jesus tenha premissas tão maquiavélicas como as que muitas vezes compreenderam os judeus. Na realidade, desacredito que qualquer um de nós compreenderá a verdade absoluta sobre Deus, conseguirá abarcar a totalidade divina. O que sobra, então, para que eu forme minha própria concepção sobre Deus?

      Para mim, o exemplo de amor de Cristo. Se resolvi ter Jesus como meu Deus, logo proponho que esse Deus sempre foi amoroso, bondoso, humilde. A visão deturpada sobre o deus déspota vinha das necessidades judaicas de ter uma divindade de guerra.

      Deus sempre foi amoroso. Sempre foi único e mesmo Deus como você bem disse. O que mudou, e que continua mudando? Nossa percepção sobre esse Deus. O que enxergamos dele. Assim, prefiro compreende-lo como esse Deus de amor, que incita a vida e a liberdade. Esse é, pra mim, um Deus que vale a pena seguir. Por isso me mantenho ateu de qualquer deus que não reflita esse amor.

      Acho que agora sim, né? hahahaha

  3. Sim, mais que evidente…rsrs
    Um ilustre seguidor da teologia relacional, um teísta aberto, como se costuma dizer.
    Teologia relacional = Religião se reinventado… mas, pelo menos, a teologia relacional tem o mérito de tentar tirar o ser humano da coadjuvação da sua história, nefastamente impingida pela cultura judaico-cristã, mas peca por não reconhecer (ainda) que jesus é o mesmo deus malévolo do antigo (e também do novo) testamento, e assim perde a grande oportunidade de ter por objeto a colocação do ser humano como protagonista de seu futuro (e também do presente).
    De qualquer sorte, normalmente são cristãos mais antenados, gente boa, e invariavelmente suas igrejas se constituem (e normalmente são percebidas assim por nós que não cremos no livro) em refúgio para os (cristãos…e não ateus..rsrs) vitimados pelos cristãos fundamentalistas, cujo grau de virulência aumenta a passos largos quanto mais judaizantes se tornam.
    Fico por aqui.
    Inté mais, amigo.

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