Palavras

Palavras

     Palavra tem poder. Esse chavão de viés místico me era repetido quase que diariamente quando, afundado em inocência, eu repetia frases das quais sequer sabia seu significado. Ao ouvi-lo, imaginava como não fazia qualquer sentido sua colocação. Dizer que eu ficaria rico, doente, ou que sofreria um acidente não descarrilhava os vagões do fado, tampouco modificava o futuro desconhecido. Palavras não são mágicas, não garantem nossos desejos nem materializam nossos receios. Palavras são palavras.

     Em provérbios, o sábio escritor aponta a importância das palavras quando afirma que a língua tem poder de vida e de morte. Não a material, a física, mas a vida e morte metafóricas. Mais do que construções sintáticas, regras ortográficas e definições morfológicas, com palavras temos o poder de externalizar o que quisermos, como quisermos. Por nossas palavras, somos o que queremos ser.

     Com elas, vou aos lugares que nunca conheci, travo batalhas inimagináveis, realizo as mais destemidas façanhas, sou o maior dos cavaleiros, o herói dos heróis. Palavras dão vida aos nossos sonhos, tangenciam nossa imaginação. Se bem manuseadas, palavras curam feridas, plantam esperança, alimentam a fé, e provocam a coragem esquecida no fundo do armário. Grandes, são os que transformam gramática em realidade, os que transportam no papel as chaves da felicidade.

     Contudo, o provérbio infelizmente acerta ao falar da morte. Como tudo na vida, palavras mal manuseadas, ou manuseadas pelo mal, podem ser funestas, nefastas, indolentes. Há os que se utilizam de letras para ceifar os pastos da alegria, para promover a liça, consagrar discórdia. Não precisa ser loquaz: para inflamar ânimos e incendiar desavenças, bastam discursos expeditos. Em poucas palavras se resumem as grandes barafundas.

     Escolho a vida. Se com palavras demonstramos o que somos e o que nos falta, e como disse Rubem Alves, transbordamos nossa alma, arremato: Sou vivo e careço de mais vida. Se arranjo palavras, é por atrever-me à alcançar corações e incitar o amor. As letras que despejo com a pena são gritos de socorro, e também de salvação. Por carecer de talentos, escrevo, ansiando conseguir vivenciar meus próprios discursos. Escrevo, antes de tudo, para mim mesmo.

     Não sou escritor. Leio mestres, e ousadamente, tento recriar suas palavras como se minhas fossem. Sou quem eu leio. Escritores mesmo são os que me formam, me informam, me amoldam. Os que enfrentam todos os dias as mazelas e crispações de despejar em palavras o que os olhos cansaram de apenas enxergar. Quem escreve nunca termina, apenas se despede. Passadas ao papel, as palavras ganham vida própria, fogem das intenções com que foram escritas. Sobra para nós, leitores, nos aventurarmos na infame tentativa de descobrir o que realmente fora dito.

Em palavras, escolho ser vida. Em vida, escolho ser palavras.

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