Insônia – O que posso e que não posso

 Manifestação Gaza

 

    Hoje, ajudei na organização de uma manifestação pública contra o horror que se alastra na Faixa de Gaza. Pintamos cartazes, fizemos faixas e fomos às ruas para repudiar a violência, e também, solidarizar com o sofrimento daquele povo. Empunhamos frases de clamor por paz, e juntos, prestamos nossas homenagens aos inominados exterminados. Tenho plena convicção que, desde que me engajei em compartilhar nas redes sociais, diariamente, conteúdos esclarecedores sobre a carnificina, fiz tudo que esteve em meu alcance.

     Ora! Se estou convicto da integridade de minhas atitudes, por quê, então, não consigo conter o grito de impotência que invade meu coração? Por quê, ao encostar minha cabeça no travesseiro, não tenho uma boa noite de sono com a sensação de dever cumprido? Permaneço ouvindo as bombas como se caíssem bem próximo. Ouço choro de infantes, passos apressados e gemidos agudos. Vejo edifícios desabando e ruas se banhando em sangue. Sinto lágrimas escorrendo em minha face, não só minhas, mas de todos que velaram seus amigos e familiares.

     A insônia me cai como alívio. Nela, me resta celebrar a efetividade de minha consciência. Por pior que seja, perceber que ainda fervo o sangue diante da injustiça e da opressão me aquece o rosto como o primeiro raio solar que vence as barreiras do céu nublado. Como canta Fernando Anitelli, é necessário não se acomodar com o que incomoda.

     Acertou Hannah Arendt ao construir o conceito da banalidade do mal como maior expressão maligna da condição humana, ao acompanhar o julgamento do líder nazista Adolf Eichmann, um burocrata estadista responsável pelo desenho dos campos de concentração, a solução final do extermínio. Eichmann, como constatou Arendt, se julgava inocente perante a lei e acreditava piamente nisso, pois apenas cumprira seu dever oficial e as ordens que lhe eram demandadas. Seu maior problema, concluiu ela, era simplesmente não pensar.

     Se Gaza, para Saramago, é a nova Auschwitz, a banalidade denunciada pela filósofa judia também se faz presente. Contudo, o que se apercebe é que, infelizmente, esse lógica nefasta não habita tão somente nos líderes responsáveis pelo massacre, mas sim, por quem se propõe a defendê-los com justificativas maquiavélicas. Os que insistem em convalidar o assassinato de crianças, grávidas e toda sorte de civis inocentes, e de ratificar o bombardeio de igrejas, escolas e casas, hoje, soçobram em banalidade perversa. Ao vendar os próprios olhos e tapar seus ouvidos para o horror implacável, esses, acabam por sufocar sua própria consciência em favor da defesa dos interesses geopoliticoeconômicos.

     Como se não bastasse, o grande exemplo do problema filosófico levantado por Arendt reside naqueles que, simplesmente, sequer refletem sobre opressão e perversidade. Aqueles que se apaziguam na ignorância, feliz ignorância, que permite dormir e acordar e suportar a rotina sem qualquer empatia com o sofredor, seja próximo ou distante. Passeiam em praças, fazem compras em shoppings, procuram a todo instante ultrapassar os meios necessários para aumentar seus padrões de vida, sua imagem pessoal e status social. A vida torna-se tão banal quanto a fatura de seus cartões-de-crédito.

     Como disse Pe. Fábio de Melo, ‘há sempre uma faixa de Gaza perto de nós’. Sempre existe, bem próxima, uma situação entre opressor e oprimido, onde temos a faculdade, muitas vezes maldita, nos concedida através do livre arbítrio, de passar adiante, fingirmos que não vimos, dizer a nós mesmos que não podemos fazer nada, até mesmo sentindo algum tipo de piedade pervertida, uma mera pena, dessas que nos faz dizer coitado enquanto abrimos a porta do carro e damos partida na ignição. Sim, se livres somos, temos a grande possibilidade de defender o opressor, afirmar que ele deve ter motivos para praticar tal ato, que por certo aquele oprimido é culpado de crime gravíssimo, da mais completa sedição, e que a correção se faz inteiramente justa de acordo com os ditames legais, principalmente se este acusado se propôr a, de alguma maneira, resistir às punições desmedidas, ainda que não logre êxito algum.

      Se somos verdadeiramente livres, e contemos algum resquício de bem ou de centelha divina esquecida nas hélices genéticas, não seguiremos adiante, tampouco ofereceremos mais armas para a violência. Realizaremos tudo que for humanamente possível e impossível para devolver a dignidade do oprimido desabrigado, recolhido à sarjeta, habitante do hades, suportante de pesos maiores que os de Atlas e Sísifo, rotineiramente encontrado às amarras do tronco. Resta a esperança de que, ao avistarem nossas reivindicações pacíficas, e ouvirem nossas vozes embargadas pelo massacre, os que por nós passaram, nesse momento, oxalá estejam refletindo sobre o que fazer para retirar o chicote das mãos do opressor.

Se tudo não posso, farei tudo que posso.

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