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Há um senso-comum muito recorrente entre ortodoxos extremistas, tradicionalistas e conservadores, que, acreditando possuírem os modelos culturais, religiosos, políticos e morais, absolutos e axiomáticos, tenta impedir todo tipo de metamorfose social inerente ao percurso histórico. Os detentores dessa estultície se demonstram alheios ao que a história comprova de maneira irrefutável: é um combate inútil, inepto, írrito, afinal, as transformações culturais sempre sobrepujaram esses loquazes guardiões da ‘correta tradição’.

Perigosa, contudo, é a crescente escalada de poder de fundamentalistas, facilmente identificados na bancada evangélica, que buscam a homogenização social segundo seus ditames religiosos. Em outras palavras, esse grupo publicamente manifesta suas intenções de fabricar seres humanos idênticos, perfeitos, professantes da mesma fé, crentes do mesmo deus, seguidores do mesmo código de conduta, vestimenta, seriamente aculturais, homofóbicos, preconceituosos, elitistas e sectaristas. Por essa corja, seriámos o gueto evangélico, uma utopia espelhada na nação perfeita dos Estados Unidos da América.

Disparatada é a aberração jurídica da tentativa de enclausuramento do ordenamento jurídico à modelos anacrônicos, completamente descabidos em nosso Zeitgeist, como se o direito, ciência essencialmente mutável de acordo com as novas realidades sociais, e portanto, precipuamente social e humana, pudesse ser engessado nos costumes e tradições das gerações ultrapassadas. Destarte, a tentativa infame de combater o surgimento de novos institutos legais e reconhecimento de direitos aos emergentes princípios de uma sociedade moderna, desde que estes não recaiam nas mesmas lógicas de intolerância, tampouco afrontem os institutos basilares da vida e da dignidade, como já dito anteriormente, acaba sendo tola.

Errôneo, principalmente, é o argumento principal afirmando que, por exemplo, as facilitações para ocorrência de divórcio, a despenalização do adultério e o reconhecimento dos direitos civis das uniões homoafetivas, resulta num enfraquecimento da ‘família tradicional’, e que supostamente incita a população a realizar tais atos de forma exarcerbada. Acontece que o ponto de partida desse consectário lógico é completamente inverídico. Posto que as facilidades promovidas pelo direito factualmente incentivem, o direito ontologicamente é mero reconhecedor do status quo da sociedade. É o direito que se amolda, como que uma régua lésbia, às mudanças sociais, e não o contrário, pois a sociedade, em seu devir, é quem efetivamente altera o direito às suas novas necessidades.

A defesa de organizações politico-sociais de livros sagrados como a bíblia, compêndio da cultura judaico-cristã, peca ao olvidar os absurdos promovidos ao longo dos tempos. No século XXI, não cabe mais a existência do machismo crônico apregoado pelo livro sagrado, como se pudéssemos admitir que mulheres são meras ajudadoras, auxiliares dos homens, e que estes são os cabeças e hierarquicamente superiores, o que até 2002 infelizmente ainda era refletido em nosso Código Civil. Não admitimos mais o casamento como instituto meramente patrimonial, baseado em acordos comerciais entre famílias e regados à violência e opressão. Descobrimos, afinal, que a terra não era plana nem o centro do universo, apesar da inquisição ter perseguido tais hereges.

A definição moderna de família como sendo a união entre pessoas na busca da felicidade e ligadas não por interesses, mas por afeto, representa o maior avanço cultural familiar. Ou seja, o que tantos demonizam como a ‘derrocada da família’, na verdade, foi o seu maior fortalecimento nos últimos tempos. Protegemos a dignidade, o laço afetivo, e a proposta de uniões autenticamente amorosas. Não tenho dúvidas que as gerações vindouras reconhecerão essa mudança de forma simples. Como hoje as igrejas, ao menos teoricamente e de forma pública, não mais perseguem negros nem desquitados, mesmo com toda a luta passada para impedir esses avanços, em um futuro próximo poderemos ver uma heterogeneidade social belíssima.

Sócrates, pensador, admitiu que a verdade absoluta é intangível. Assim, só o tolo imagina tê-la alcançado. Pensar é mudar, é ,principalmente, uma autolibertação da tentação constante de nos acomodar em absolutos. Quem pensa sempre almeja releituras. Ao revés da causa e efeito, fico com Heráclito e seu devir. Prefiro ser metamorfose ambulante de Raul às muralhas axiomáticas da constância. Há sempre uma possibilidade de recomeço, de mudança. Pessoas não são máquinas, arraigadas em determinismo. Somos livres para mudar.

É livre  aquele que escolhe a vida, que dá espaço ao amor e que se empenha na construção de um futuro melhor.

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