Mudei: E agora?

Correnteza

     Tenho escrito repetidamente, as vezes com escamote linguístico rebuscado, outras de forma declarada, acerca da inconstância do ser e da necessidade ontológica de metamorfoses. Não é difícil, caso se lancem olhares atentos, perceber que o devir está presente em todas as áreas da nossa vida. Sofremos alterações biológicas, psicológicas, sociais, legais, visuais, conceituais, artísticas e espirituais. O grego Heráclito, ao equacionar ser e não-ser, se utilizou da metáfora do rio que corre e que já não é o mesmo quando nos banhamos pela segunda vez, e tampouco era na primeira vez, se abstrairmos ainda mais seu conceito. Somos constantemente inconstantes.

     Acontece que, inexplicavelmente, há ainda uma dificuldade, talvez generalizada e patológica, de admitir releituras, de impedir transformações. Todas as grandes mudanças do mundo foram tolhidas pelos antecessores e assaz defensores de uma ortodoxia, que evidentemente só era concebida como a deles próprios. Mais contraditória ainda é a percepção que, os ora tido por ortodoxos, já estiveram do outro lado do front de batalha, defendendo com unhas, dentes, e a própria vida se for, a mudança. Envelhecer não precisa, necessariamente, gerar cinismo. Daí Saramago, em seu Ensaio sobre a Lucidez, constatar essa prática comum e arrematar, rispidamente, que “estes homens e estas mulheres, diante do espelho da sua vida, cospem todos os dias, na cara do que foram, o escarro do que são”.

     Sendo o que escrevo sempre pessoal, sempre um pedaço de mim que se escancara, esta é também uma carta-aberta à você que me conhece, ou que me conheceu, e que hoje, talvez, sente pena, raiva, tristeza e até repulsa do que hoje sou, ou me tornei. Inicialmente, ressalto: não sou mais o mesmo. Mudei, repensei, e esse é motivo de orgulho, jamais de lamento. Encaro como o eu-lírico de Cecília Meireles, que se pergunta em que espelho ficou perdida sua face. Contudo, diferente deste, não faço disso uma tragédia, e sim uma epopeia. Como Arnaldo Antunes, percebi que as roupas do passado encolheram, e assim permaneço: sem me adaptar.

     Encontrei um consolo na provisoriedade. Admiro autores que alimentam incertezas. Entendi, finalmente, que a verdadeira liberdade respira o ar das dúvidas, se constrói em desconstruções. Não preciso mais das firmes e indefectíveis verdades. Não vou mais me contentar com respostas que não admitem novas perguntas. Não sento mais à mesa com quem sabe tudo de acordo com uma cosmovisão. Não sou mais tão criança, como também descobriu Renato Russo.

     Acredito na vida que não cansa de se reinventar. Prefiro a fênix, ao logos imóvel. Desacredito que militâncias em prol do amor, da liberdade, da igualdade e da compaixão estejam erradas por falarem noutra língua, ou por afrontarem minhas bases. Me arriscarei a destruir meus supedâneos para poder me reconfigurar. Sou um homem de fé, não aquela das certezas profanas e algemas, mas a autêntica, que se confunde com esperança, aposta. A fé, quando divina, se exprime numa frágil chama, bruxuleante e intermitente: jamais como fogueira. O amor nos faz livres para sermos quem quisermos.

     Não entendo o horror que provoco em quem já me admirou. Falo nos princípios mais basilares da vida plena e acabo por chocar quem ainda clama por vingança, julgo e poder. Assumo a responsabilidade de claudicar novas heresias, sempre lembrando que hereges já foram queimados por afirmarem que a terra é redonda: o óbvio é desapercebido por quem tem escamas. Se ultrapasso fronteiras buscando a integridade e sensibilidade que me faltam, descompreendo a irritação causada. Se falo em amor, só amor, apenas amor, esse que tanto careço, é por, ao constatá-lo, apreender meu vazio interior e os espaços não preenchidos onde só ele cabe.

Se sou ingênuo, assim permanecerei.

 

 

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3 comentários sobre “Mudei: E agora?

  1. Excelente Texto! Muito bem construído, objetivo, e acima de tudo, sincero. Que Deus te abençoe para que em tantas mudanças, o Amor (nome próprio e incomparável) permaneça.

    Abraço! Do seu amigo!

  2. Aos que julgam saber, digo apenas que não esqueçam de aprender. Pobre coitado de quem se interessa pouco! Diria algo parecido, minha referência musical, Tiago Iorc. Talvez menos prestigiada do que as citadas em tua carta.

    “Retalhos e Frestas”… “Aforismos da sensibilidade de Yago” é o título que vejo para quase tudo que tu escreve.

    Espero que você, meu amigo, permaneça como está, pois tenho plena certeza que não é em estado de ingenuidade. Mesmo sabendo que muitas vezes a ingenuidade ou a ignorância podem ser uma dádiva.

    E retomando ao foco principal do teu texto: O paradoxo que é a busca pela identidade e pela mudança do ser, que sejamos sempre identificados e lembrados por sermos melhores – me permita não ser julgado reducionista – e por que não, ingênuos?

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