Prófugo

Lua     

     

     O sol já recolhia os últimos feixes de luz. Olhou em volta e só então percebeu que o dia inteiro se passou desde que se pusera em caça à mais feroz besta que o mundo conheceu. Persistiu em sua missão e continuou, apesar do cansaço pungente e as dores agudas no joelho machucado. Esperara uma vida por essa oportunidade, e não se renderia tão perto do êxito. Atento como uma águia, ágil como um falcão, olhava ao redor buscando o menor sinal de movimento do terrível monstro. Passadas cautelosas, silêncio absoluto e concentração aguçada eram as melhores armas para utilizar naquele momento.

     Eis que um rápido corte no vento ressoa no flanco esquerdo. Os reflexos do homem cansado não se dobraram ao percurso do tempo e logo atenderam ao chamado. Disparou. O bicho, pensava ele, parece muito mais veloz que se podia imaginar. Não havia tempo para pensar, haveria de confiar nos seus impulsos quando surgisse a chance de exterminá-lo de uma vez por todas. A ocasião já parecia iminente, a excitação da adrenalina irrompia de suas veias. Seria o fim do temor universal.

     Logo se viu num beco sem saída. Cercado por altas árvores e montes íngremes, as trevas da noite escura recaíam naquele cenário funesto. A dor e o cansaço ainda mais o açoitavam, e sentia a vista obnubilada. Claudicou um pouco mais, e percebeu o silêncio absoluto e até perfurante que ora se fazia. Foi o medo que arrepiou a sua espinha. Percebeu, assim, que em sua frente havia uma poça, e há tanto não bebia.

     Ao curvar a fronte em busca da água, um espanto! O que houve com seu rosto? De onde vieram esses pelos nas mãos? Esses dentes, por que cresceram? Desesperado, agitou a água como se tivesse sido uma miragem. O reflexo, contumaz, insistiu na mesma máscara. Não reconhecia a si próprio, como se tivesse transmutado noutro corpo, noutra forma, noutra vida. Era ele, mas não era.

     Percebeu seu corpo, não essa bestial aparência que agora suportava, mas o seu acompanhante de longas décadas. Ao remexer o cadáver, se atirou em prantos ao sentir o gosto de sangue na boca. A confusão irradiou, o pensamento embaralhou. Sua luta não tinha alvo. Mirava o espelho e atirava no reflexo. Deter o monstro era interromper a si próprio, negar a si mesmo.

     A força rompia suas vísceras, entupia suas veias e destroçava suas cordas vocais. Era ele, o devorador de sonhos, esmagador de paixões. Sua sede era de ódio e seus olhos eram fúria. O demônio jamais exorcizado que se fazia em descontrole e quebrava as correntes. Por tanto tempo era ele, sempre ele, verdugo e vítima. Era ele a fera que tanto caçara, e que agora vencera seu mais destemido caçador.

Anúncios

Seria um prazer se você deixasse um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s