Polemizando

 

Polêmica

     Já tornou-se costumeiro, lugar-comum, para mim, ouvir que sou ‘polêmico’ várias vezes durante o dia. Alguns o dizem em tom recriminatório, outros tentando oferecer um aconselhamento, e outros de forma branda, mas um tanto quanto preocupados com essa realidade. Seja de uma forma ou de outra, acontece que a grande maioria se sente incomodada e desconfortável com minhas opiniões, muitas vezes embaralhadas e impulsivas, sobre os mais variados temas.

A polêmica é a refutação

     Mas o que é polêmica? Em seu sentido original, ela diz respeito à refutação de ideias, debate de posicionamentos contrários, a colocação de teses divergentes, antagônicas, encontrada em diversos campos discursivos como a filosofia, a religião, a política, a física, e até mesmo o futebol. Não basta, ou pelo menos não bastaria, uma mera discordância acerca de um assunto, mas sim, uma verdadeira exposição de teses definidas e expostas segundo pressupostos lógicos. Não apenas rejeitar, tampouco promover confrontos pessoais, mas fundamentar o combate de ideias.

     O que se apreende desse conceito é que não lhe é intrínseco, necessariamente, que se busque um vencedor. Esse tolo maniqueísmo lógico não deveria se apresentar num debate, não lhe é cabido. Se espera de uma polêmica não a vitória de uma tese, mas a construção de um novo modelo de pensamento que pode, muitas vezes, englobar em parte ou até por inteira a tese refutada, como sendo fração de algo maior. A polêmica, precipuamente, é uma das melhores formas de alcançar a evolução do pensamento.

     Neil Degrasse Tyson, numa de suas apresentações mais famosas realizada em seu programa de TV, quando explicara a construção da Teoria do Big Bang, lecionou de forma salutar não só a respeito do próprio conceito de teoria, mas sobre a construção teórico-científica baseada nessa refutação. O que o astrofísico relatou, de forma muito clara, foi sobre esse englobamento de uma teoria por uma visão mais abrangente. Em outras palavras, na ciência, quando algo é refutado, a tese anterior não se perde por inteiro, mas é aproveitada e melhor desenvolvida.

A polêmica é o novo ‘diabólico’

     Mas será que as pessoas que rotulam polêmica à torto e à direito realmente compreendem seu real sentido? Parece que não. O que comumente se entende por polêmico é, na realidade, todo tipo de assunto que afronta suas ideias e crenças. Quando fechadas ao diálogo, ao novo, ao diferente, passou a se denominar polêmico todo tipo de opinião contrária ao que, em sua concepção, é o correto e naturalmente aceito.

     A polêmica é o tabu. Quando nossas bases correm risco de serem desconstruídas, quando podemos abalar nossas concepções, mais fácil é fechar a porta e fingir que não estamos em casa. A lógica é simples: se estou plenamente convicto que meu posicionamento não só está correto, como é o único correto, decaída está toda pretensão de evolução. Para os cínicos, a perfeição já fora alcançada e não há porque se arriscar a perder essa certeza.

     Já fiz parte de um sistema religioso que me levava a acreditar que questionamentos como ‘beber é pecado?’ ‘fumar é pecado?’ ‘fazer sexo é pecado?’ eram temas polêmicos, e portanto, diabólicos. Aliás, dentro dessa instituição, aprendi a tolher dúvidas em prol de uma fé plena e certa, que não beija os limites da apostasia. Como a dúvida gera incerteza, melhor dizer que é polêmico, interpretar errado Tito 3:9 e fugir o mais rápido possível de qualquer sinal de heresia. Nada mais medieval.

     Muito pior, a ojeriza à polêmica a tornou pejorativa. Quando se diz que ‘a eutanásia é um assunto polêmico’, não se pretende afirmar que existem várias vertentes e formas de pensamento à respeito, mas sim, que ela é terminantemente imoral e ilegal, e existem várias pessoas malucas tentando nos convencer do contrário. Os polêmicos, percebam, são apenas os contrários ao vento, nunca à popa. Esse tipo de reducionismo explica bem a dificuldade do homem que, em sua subjetividade, avança mais que a sociedade em que está inserido. Seu destino, pelos conservadores, é o ostracismo.

Por que polemizar?

     Basicamente, grande parte do conhecimento que adquirimos ao longo do tempo estaria perdido sem esse método. Aristóteles, por exemplo, defendia o geocentrismo. Se Copérnico, séculos depois, não tivesse a coragem de refutar o senso-comum da época, Einstein jamais poderia ter alcançado a teoria da relatividade. A ausência da polêmica significa enclausuramento em definições que muitas vezes são ou se tornam descabidas com a constante mutação do mundo.

     Mais que isso, a rejeição às diferenças e novas formulações provoca o alheamento nefasto. Milhares de mulheres são vítimas mortais de estabelecimentos de aborto clandestino, negros são condenados sumariamente por severa intolerância racial, homossexuais não encontram espaço na sociedade para o gozo de seus plenos direitos sociais e cívicos. Mesmo assim, o conservadorismo exacerbado foge desses temas e protelam a solução necessária para a consagração da vida e da comunhão. É polêmico admitir que a eutanásia deve ser legalizada para promover um fim de vida digno aos que vivem à míngua em leitos de hospitais, ou há muito se foram desse mundo como pessoas, e por isso permanecemos sem nos manifestar. Esquecemos, assim, que o silêncio é também uma posição.

     Polemizamos porque somos opiniosos. É naturalmente humano, imperfeito e limitado que somos, questionar o incompreensível e o habitual. Somos essencialmente inconformados com a realidade imposta. Precisamos esmiuçá-la, decifrá-la, compartimentalizá-la, sistematizá-la, para enfim termos paz. Essa inquietude, quando assaz incômoda, nos remete à uma necessidade de bases indefectíveis. Esse é o fim da polêmica, sua banalização, e consequentemente, a lápide da transformação. Polemizamos pela ânsia incontrolável de repensar, e pela necessidade de nos remoldar.

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