Delusão

Sísifo

O amargo da vida me cansa. De tristeza, adoeço. Descobri que a terra gira em torno de si e do sol, jamais de mim. Não sou eixo, centro nem motor. Já discordo dos sentidos de existência que me incutiram quando menino, e me vejo tateando paredes sem encontrar janelas. Somos todos coxos, claudicando nas areias do tempo, fadados ao nada. Olhei para mim e não me achei. Procurei, lá dentro de mim, no mais profundo de meu ser, as linhas que marcavam minha identidade. Busquei em vão os quadros que iluminavam meu existir. Vi no espelho um rosto enrugado e vetusto. Enxerguei uma alma fatigada. Toquei um coração em torpor. Tudo indica que esteve Cronos a me engolir. Sou agora irmão de Sísifo e Gregor Samsa. Já não encontro mais caminhos para os hiperbóreos nem para Nárnia.

Descobriu Shakespeare que a vida é apenas um misto de som e fúria desprovida de sentido e contada por um idiota. Schonpenhauer, Camus, Sartre e Kafka perceberam o absurdo da existência. Não existe deus para salvar nem diabo a quem culpar: todos nós, errantes, suportamos nos ombros o peso inexplicável da vida. Vítimas do acaso e das escolhas. Que tragédia me escreveram? Não almejo o trono de Macbeth, tampouco anseio vingança como Hamlet. Ainda assim, me vejo como Édipo, em profunda viagem para o autoconhecimento e sem escapar de minha maldição. Sinto o peso do céu em minhas costas, e peço à Jove que não me tome mais por Atlas.

Aonde foi Minerva com seus conselhos certeiros? Carente de sabedoria, permaneço estulto, sempre escolhendo a estrada mais longa. Minhas pernas doem, minha boca seca, e não vejo oásis para me refrescar. Estou como o gato amaldiçoado de Schrondinger, vivo e morto simultaneamente, sem que ninguém possa percebê-lo. Tem dias que o sol não aquece, a noite não acalma e a luz não alcança. Nos vemos sós, caminhando sem destino, sem sentido e sem razão.

Perco em mim a esperança de encontrar respostas na racionalidade para o mal, a dúvida, o sofrimento, as falhas e dissabores. O coração, por sua vez, também se faz enganoso, vil e traiçoeiro. Padeço em um torpor insidioso. Mesmo assim, rejeitamos enfrentar a realidade da vida que rejeita sentidos para si mesma. Esta, sempre sobrepuja nossas muralhas de conceitos, e o que nos sobra é a contumácia de repetir que há um motivo e uma esperança, tantas vezes quanto bastem até que acreditemos. Quão contrastantes nós, vindos do pó da aleatoriedade, sacerdotes do absoluto inexplicável, cientistas do nada. É o vazio que nos incomoda, e que em vão tentamos preencher.

Nosso pecado é a consciência. Fomos amaldiçoados com o raciocínio. Prisioneiros são os desiludidos que alcançam a verdade. Nada mais somos que um erro matemático, estatístico, físico e biológico. É lúcido admitir que somos um projeto que falhou. O mundo é a gargalhada da perfeição. Estamos vivos pelo delírio do objetivo. Permanecemos pela intransigência da razão. No fim, todos estamos abandonados em nós mesmos, cativos na própria mente. Nosso fado é o abandono. Nossa dor, o desassossego. Nossa cura, só a loucura.

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