Ensaio do Homem-Deus

     Toque Adão

     ‘Pai nosso que estais nos céus.’ Assim perdurou-se a mentira por infindáveis séculos, a enganação maior do homem em todas as suas épocas, com todas as suas faces.  De que vale o deus hiperbóreo, muito além dos ventos e sempre inacessível? Essa divindade, escondida no lugar mais remoto do universo, o tão desconhecido céu, só serve de oportunismo para charlatões que, desde as civilizações mais primitivas, evocam para si o cetro do poder universal e se intitulam única ponte ao déspota espiritual que governa com mãos de ferro. Esse distanciamento crônico foi a arma perfeita do prestidigitador para alcançar o seu próprio trono. O deus do céu só nos serve enquanto poesia e alegoria, metáfora e simbolismo dos quais nos utilizaremos quando faltar vernáculo para exprimir o que sentimos e pensamos. Se temos Javé e Jove[1] rivalizando pelos desígnios da criação, Adão e Eva aprofundam o drama psicológico humano tanto quanto Atlas.

     Por sorte, tivemos a sagacidade de construir uma das metáforas mais belas e significativas, que é a representação do deus que habita em nosso coração e de seu reino que poderá ser vivenciado neste. Tal ideia representa o caminho inverso do homem que, à imagem e semelhança de deus, assume também seu papel na criação. Deus e Homem se apresentam, em seus sentidos precípuos, como duas faces da mesma moeda. O que se percebe é a construção de uma via de mão dupla, onde não mais existem distâncias insuperáveis entre os seres opostos, mas sim, a comunhão de vetores e desdobramentos de ambas as naturezas. Já não formam-se antagonismos capazes de separar o Olimpo de Gaia.

     Acerta Freud ao propor deus como uma projeção humana – a meu ver, errando somente ao limitar em uma projeção do pai. – Todavia, essa premissa não deve assumir um papel absoluto, afinal, se é certo que por projeção entendemos como um processo inconsciente, também podemos enxergar nele uma construção consciente. Deus, e o seu inverso – a sua negação – em suas formas absolutas, são unicamente o extremismo, respectivamente do inconsciente ou do consciente. Não há, ou ao menos não deveria haver, distinção entre deus imaterial e ser humano material. Partindo do dispositivo inicial, o toque de Adão com o Pai, perfeitamente demonstrado em Michelângelo, não ocorreu nem na terra nem nos céus, mas no limbo que achamos por denominar coração. É nesse misto de etéreo e tangível, físico e metafísico, transcendente e imanente, que deus e homem se fundem.

     O que caracteriza o paganismo é a dissimulação de um extremo em outro, algo que Nilton Bonder afirmaria ser o mais nocivo à vida. Ele ocorre justamente quando se cultua o deus metafísico, em detrimento do homem material, ou pelo seu inverso. Daí os flancos da religião e da razão se mostrarem néscios, e mutuamente pagãos. Cabe ao religioso aceitar sua humanidade, e ao racionalista assumir sua divindade. Carente de propósito universal, reconhecendo os conflitos entre seu eu e o mundo que o rejeita, de seu corpo conservador e sua alma transgressora, e da dualidade física-espiritual de sua constituição, ao homem-deus não resta saída, senão construir seu sentido e equilibrar suas tensões.

     Não se pode conceber a experiência divina dissociada do humano. Eis o paganismo em sua forma mais vil! Ao retirar do corpo a alma, e aceitar a existência de uma nova dimensão, sempre impalpável, negar a vida e se jogar no abismo do irracional, o religioso destrói consigo tudo o que lhe mantém humano, toda sua capacidade de gerar vida. Tal niilismo, já alertava Nietzsche, é fonte primária de toda a decádence, sinal primeiro da involução. Qual o valor do homem que, ao invés de se reconhecer humano e de acentuar suas virtudes e aceitar suas incompletudes, prefere voltar a ser babuíno? Destes, só se espera ódio e vingança. Seu alvo é tudo o que valoriza a vida, todo sacramento humanista, toda ação humanitária.

     O que dizer, então, do humano retirado do divino? Seu imperativo é a depressão. O homem afastado de seu deus, não o que jaz morto nos céus, mas aquele  psicológico que habita o coração, que há pouco falávamos, é igualmente desprezível e pernicioso. Afastado de toda a força, sua razão deixa de representar uma lucidez pontual, limitada mas presente, e passa a ser um veneno insidioso, o engodo. Ensimesmado, não percebe que ultrapassar seus próprios limites racionais é adentrar no covil dos ladrões, ser embustado pela teia da aranha. O sábio apenas reconhece seus próprios muros. Sem assumir a divindade que pulsa em suas veias, e que o convida à utopia amorosa, erguida está a prisão dos espelhos. Seu fim, terrível, é olhar para si mesmo.

     O esforço de equilibrar nossas tão presentes contradições é a força motriz que impulsiona a vida plena. Não se espera nada menos que a capacidade de sobrepujar a sub-vida da ilusão racional e religiosa, obedecer ao mandamento lancinante da alma que clama pela evolução, mas resguardando o corpo da preservação. Não é só deus, símbolo maior do pleno, e o homem, simbolo maior da inquietude, mas o homem-deus, introspectivo e expoente, que ultrapassa as barreiras do eu e alcança o regozijo do nós. Tensionar conflitos: eis a pedra de todos nós.

     Só no deus que deixa de habitar os céus da eternidade e se transforma no mais perfeito símbolo do humano, encontramos a força de se reinventar escondida nos armários mais profundos do ser. Só nele despertamos o olhar para o outro, também partícula divina, igualmente importante a mim. Esse é um deus-metáfora que nos convida ao reconhecimento de nossas dualidades e imperfeições, que agora já não nos envolve com o mantra do pecado, mas sim, nos acolhe para ser o que somos. Para o homem-deus, se reconciliar com o altíssimo se transforma em reconciliar-se com si mesmo. Esse encontro interior nos distrai de toda ilusão de sentido e ordem moral universal, e nos impulsiona a construir, de peito estufado, nossa própria trilha.

[1] Nome romano para Zeus.

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3 comentários sobre “Ensaio do Homem-Deus

  1. Gosto da ideia de desistir das sublimidades sobre-humanas quando se pensa o divino. Não há nada para se dizer de Deus que seja humano. Se houver e for dito, humaniza-se. Se houver e não puder ser dito, pulveriza-se, de tão impronunciável. Nossa humanidade é tudo o que temos, mesmo que não seja tudo o que há.
    Também aprecio o Vattimo e o modo como nos apresenta ao niilismo nietzscheano. Nele todas as onipotências sofrem a kenosis, o divino esvaziamento por amor de Deus em Jesus. Ora, se de Deus, tudo o que conseguimos dizer é o que em Jesus foi possível viver; do humano, tudo o que deveríamos chamar de divino é o que no mais humano de nós é possível dizer.
    Parabéns pelo texto!

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