A Banalidade Religiosa

O Pensador

     A humanidade já foi espectadora das mais diversas barbaridades que, de súbito, tomaram o palco da vida e semearam a morte. Incautos fomos tomados à assistir a destruição, o crime, a violência e a desumanidade dos possessos pela própria maldade. Em todas as partes, nos nossos jornais, nos livros de história, nas lembranças dos antigos, nas canções, nos gestos, nas leis, nas doutrinas, encontramos as manchas de sangue espremidas pela crueldade. O demônio, não a caricatura desenhada nos vitrais, não o suposto ser etéreo, mas o verdadeiro lado oculto da alma psicológica humana, a escuridão nefasta encrustada em nossa ambiguidade subjetiva, já muito assolou nossa terra.

     Nenhuma maldade, contudo, há de ser tão vil e funesta quanto a religiosa. Em toda memória deste mundo não se encontram perversidades mias pungentes que as praticadas em nome de deus. Seja em Gaza, Ruanda, Índia, Brasil, México, Itália, Jerusalém ou em qualquer outro cenário, parâmetro algum superará o inferno manufaturado pelos sacerdotes. Ainda ouço os gritos contumazes que ressoam das fogueiras e das cruzes cravadas nos corações, no sentido mais literal que possa existir.

     Chocou Hannah Arendt a banalidade de Adolf Eichmann, que por mero acatamento burocrático estava cego aos crimes cometidos pelo regime nazista. O pior mal, dizia ela, é ignorante e banal. Muito me aflige perceber que esse mesmo mal corrompe nossas veias desde os primitivos que forjaram uma procuração divina para dominar a realidade. A perversidade faz morada na grande irresponsabilidade dos criminosos. ‘Em nome de deus’, e a culpa já foi lançada aos céus. Essa fuga, esse escamote do real, essa transferência de autoria, brada em alta voz o cinismo que insidiosamente expurga nossas defesas e avassala nossos castelos. Desde Ivan Karamazov, somos os únicos detentores de méritos e deméritos.

     Quantas lanças perpassaram almas pelo estrito cumprimento legal, moral e espiritual? Quantas vidas hão de se laçarem na sarjeta pelos burocratas religiosos? Todo o agrupamento de normas como justificativa para a maldade é imoral, ilegal e desumano. Nenhum versículo, nenhum sacerdote, nenhuma doutrina e nenhum deus tem em si o poder de ratificar o mal, fomentar o ódio e dispensar a destruição. Se em ‘Jonestown’ o mundo assistiu impassível o suicídio coletivo de mais de 900 pessoas em nome da religiosidade mais abjeta, o culpado não é outro senão o homem que lançou a ordem. O diabo, para aqueles, se chamava Jim Jones.

     Sartre constatou a má-fé de todo aquele que se escusa de assumir suas próprias responsabilidades, que se vale de pretextos, desculpas e subterfúgios para sustentar qualquer tipo de determinismo que obnubile sua própria incumbência. Esse fundamentalismo doentio, que se desdobra para além da religiosidade stricto sensu e acomete partidos políticos, sistemas de governo, estruturas sociais, modelos econômicos e teorias científicas, é a mola propulsora da banalidade que recorrentemente enfrentamos atônitos. A cura só virá com homens livres, conscientes e críticos, que forjarão uma história digna da grandiosidade humana.

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