Conto do Des-Encontro

Mãos

Cícero Sertãozinho, o Cicinho, cresceu desencontrado. Já em meninice, acostumou desachamentos e acumulou perdições. O quarto mais parecia buraco negro de tanto envio, sem regresso, de lápis, sandália e chapéu. Dona Severina repetia sem cansaço:

– É mal de pobre. Se não lhe falta, some.

Em mocidade, Cicinho despercebeu o pai. Era tanto sumiço que custou a dar pela falta das estórias pra dormir e as músicas desentonadas. O fim dos cigarros engoliu o homem que, pela rua, partiu ao encontro da lua. As estradas mudaram de rumo e desencontraram a família sertaneja. Jogado aos braços do chão de pedra, o menino se remexia em sonhos.

O ponteiro girou mas a sorte não deu caras. Nos estudos, Cicinho perdia trabalhos, provas, livros, até mesmo tempos. Os soluços da mãe aumentavam, a coitada se derretia em prantos, lagrimava dores. De joelhos, todas as noites, pedia pro menino se aprumar e encontrar soluções.

Todo santo via, e ouvia, as preces da mãe que flagelava corpo e alma. Debulhava terços, quartos e quintos, mas só escutava o implacável ruído do vazio. Um silêncio dói mais que mil palavras. A procissão de sua vida se insistia insípida.

Os fervores da mãe alhearam o menino já moço que abandonou sagradações. Quando descobriu que o corpo não esquecia fome, e gritava mais alto que a voz, viu que os anjos também se perderam na eternidade. Só a terra seca batida nos seus pés parecia estar presa à ele, para não se incontrarem.

Numa das idas ao mercado, quando arrumava papel, olhou pra cima e cegou com o sol que chovia fogo. ‘Já se indo tudo, só me falta acabar sem olho e vida.’, pensou consigo mesmo. Regressando ilumidades, procurou a ruela que há pouco percorria com avidez. Estava noutro lugar, um que se descortinava em sua visão que agora parecia mais-que-perfeita.

Esfregou os olhos, beliscou o braço, na tentativa de acordar de mais uma de seus sonhamentos. Nada feito. Montanhas de objetos se erguiam e atravessavam as alturas. As pilhas e pilhas das mais diversas coisas começaram a ser reconhecíveis. De súbito, percebeu: era o armário de sua vida.

Ao fundo, vislumbrou a silhueta de alguém de carne e osso. Ainda atônito com a descoberta, tonto como que em montanha-russa, caminhou vagarosamente ao encontro do andarilho desconhecido, enquanto nomeava todos os seus pertences despertencidos.

Quando chegado, o homem de feições rudes e barba longa se virou. Com o cigarro no canto da boca, exclamou:

– Enfim, pirralho. Já não tinha mais perna para passear em seus passados.

Não entendeu. Por que seu pai não o chamou antes? Por que a demora, de que agora era culpado, não ocupava ela a cadeira do réu? Nauseado, só conseguiu perguntar:

– Que lugar é este e como vim parar aqui?

– Esse é seu reino encontrado. – respondeu com prontidão o homem, que continuou – É para cá que vem tudo o que não prestamos atenção, ou que queremos esquecer. Para chegar nele, precisamos desperceber a nós mesmos. Quando fechamos os olho do corpo, abrem-se as visões da alma.

Cicinho se virou para mais uma olhadela em tudo que desencontrou na vida. Agora, as antes inolhadas coisas reluziam como nunca. Parecia que, naquele lugar, o que agora se perdia era o alheamento, e aumentava a atenção. Se antes passava por tudo desinteressado, o moço já menino queria esgotar a tudo, apegar-se aos montes e reconciliar-se consigo mesmo. Olhou mais uma vez ao pai e, com olhos banhados, exclamou:

 – Te encontrei, para nunca mais.

Voltou para o mundo fincado ao colchão. Ao fundo, pôde ouvir o cantorio desafinado de pai e mãe que lavavam e batucavam panelas. Fechou com força os olhos. Se com a vista despercebia, ficará com a alma que a tudo dá atenção. Eis que o menino se fez divino.

Nota: Escrevi este conto inspirado pelo estilo e sensibilidade do Mia Couto. Sou tocado pelo seu trabalho e seu espírito! Suas palavras alcançam a alma. Esta foi a forma que encontrei para agradecer

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