Novos Recomeços

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     Na calada da noite, um homem de renome, de prestígios e poderes, sorrateiramente, se dirigiu àquele que poderia acalmar suas angústias. Tomado por dúvidas, aterrorizado por medos, preconceitos e incertezas, se achegou de mansinho, sem que se pudesse perceber que o austero mestre, sempre capaz e potente, agora se derramava em fragilidades. Seu vocativo foi tipicamente bajulador, como se anunciasse, de antemão, que esperava respostas concretas para toda aquela perversão de sentidos.

     Implacavelmente, recebera uma resposta desconcertante. Certamente esperou por um agradecimento piedoso, inundado de falsa modéstia, talvez como os que costumava proferir costumeiramente. Ao revés, ganhou uma charada, daquelas que martelam a cabeça até decifrá-las. Sua cura se encontrava no refazimento, seus sentidos precisariam ser invertidos, suas respostas transformadas em mais inquietações.

     Ainda com a voz embargada, atônito com a complexidade daquele discurso, questionou infantilmente: como um homem velho seria capaz de transformar a si próprio? Em outras palavras, seu corpo conservador gritou, de plano, que não estaria disposto a abrir mão do que demorou uma vida para edificar. Já não havia mais tempo para tais bobagens.

     A insistência naquela anedota afligiu o senhor carente de chãos. O Rabbi, com olhar meigo e compenetrado, tentava insinuar o mínimo, dizer cada vez menos, na esperança que o diálogo fosse preenchido por desdobramentos, insights e desenvolvimento mútuo. Não acreditava em verdades senão construídas no encontro. Não aceitaria respostas que não levassem a mais perguntas. Não passaria por tolo passando sentenças que já não suscitavam outros complementos.

     Percebendo a incompreensão que assolava o desgastado interlocutor, desferiu novas parábolas, com dizeres mais palpáveis, para que fizessem morada em sua consciência e permanecessem no pensamento como um ruído agudo, inquietante, incessante, mas que só precisaria de alguns encaixes para acalmar. Deu as pistas do pequeno quebra-cabeça, e saiu.

     A incapacidade do fariseu para perceber do que a ele se anunciava não se dava, principalmente, pela retórica sagaz e enviesada de Jesus. Sua fala, ainda que chocante, e o receptor incauto não tornaram o discurso inapreensível. A primeira resposta de Nicodemus já anunciara o problema: estava fechado, sumariamente, para subversões.

     Tento imaginar, ainda que de forma humilde, os desdobramentos da metáfora do renascimento proposta pelo Nazareno. Em um primeiro momento, me parece que renascer das águas tem um “quê” de simbólico de nossa primeira aparição. De igual forma, saímos de um bolsão d’água para a insegurança do ar.

     O surgimento da vida é tido como um evento mágico, transcendental, dotado da mais profunda beleza e maestria. Não o nego. Porém, é preciso observar que o nascimento traz consigo manobras aterrorizantes. A pressão e a dor para retirada do bebê; a saída do ambiente seguro e confortável para um mundo hostil; os primeiros segundos de asfixia; o choro; o turbilhão de sensações nunca antes experimentada; o ar que insufla de forma transgressora os pulmões ainda tímidos e inexperientes; a dor; a palpitação; as dúvidas; os medos; o amontoado de olhares estranhos e um tanto quanto medonhos; as primeiras luzes que cegam; por sorte, de nada disso lembramos.

     O temor daquele corpo envelhecido não carecia de razões: renascimentos, ou refazimentos, implicam na mesma série de eventos trágicos e caóticos como os descritos acima. Para se refazer é preciso quebrar-se, ou afogar-se, e cautelosamente, reconstruir-se com o zelo do oleiro e a sensibilidade do ourives. É preciso abandonar muralhas, certezas, privilégios, confortos, ilusões, crenças, atitudes, conceitos, e se abrir ao novo, sempre estranho, sempre outro.

As garantias são poucas. Nem a Nicodemus, tampouco a mim, foi dada qualquer fórmula exata. Aliás, essa é uma das propostas basilares da subversão: viver sem apelos. Já não há a segurança do útero. São várias trilhas, e por todas elas, passaremos claudicantes, com bagagens de responsabilidade, mas também contando com a leveza dos jardins intermitentes.

O destino? Suspeito que seja a tal luz da qual Jesus falou. Talvez, uma luz que, de tão intensa, encha de coragem toda a terra para também nascer de novo.

 

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