Ódios e Armários

Armário

     “Eu não tenho nada contra, mas…”. Como escritor, me sinto na liberdade de ser hiperbólico para dizer que todas as falas preconceituosas começam assim. Todos sofremos com os ânimos acirrados durante as eleições, vimos amizades se despedaçarem, famílias se degladiarem, e o peru de natal se tornou palco para atrocidades. Diariamente, nas redes sociais, somos atacados – sim, pois esse tipo de ofensiva é contra a humanidade – por mensagens transbordando ódio de classe e intolerância ao diferente, algo que, pelo que consta, parece estar em alta.

     Mas onde mora o preconceito? A família tradicional, com fala piedosa, afirma que não odeia o homossexual, mas a homossexualidade; liberais, com discursos messiânicos, querem defender a pátria salvando uma economia que só alimenta uma ínfima parcela da sociedade; a classe média, com fala justiceira, acredita que cotas raciais constituem uma grave forma de preconceito; agentes públicos, guardiões da moralidade, criticam gastos sociais com a mão esquerda enquanto aprovam auxílios constrangedores com a direita.

     Minha suspeita é que ele se encontra no armário. Encurralados com a expansão de conscientização social, tornou-se costumeiro destilar um ódio velado, escamoteado, mas de consequências, talvez, ainda mais graves. É por isso que a internet se faz solo fértil para a agressão: com o distanciamento da rede, bastam poucos retruques para que um conservador mostre sua verdadeira cara, e fale o que dificilmente teria coragem de pronunciar pessoalmente.

     Artifícios não faltam. Seja a bíblia, seja a ordem cromossômica, seja a experiência pessoal, ao final todos querem legitimar o ódio com algum imperativo. O preconceito travestido em moralidade veste-se de leis e prosas para disfarçar sua verdadeira face. Esse cinismo não é só maligno, mas também uma das grandes barreiras que impedem o combate à desigualdade social e a comunhão entre os povos.

     Quantos deuses usaremos de desculpa para agredir o outro? Qual moral tem poder de ratificar a exclusão? Que ciência legaliza o ódio? Que verdade é essa que, durante toda a história, só nos trouxe guerras e destruição? Até quando sustentaremos o desprezo utilizando máscaras? Concordo com Nilton Bonder quando afirma que o verdadeiro mal é a dissimulação. Essa que nos oprime, ilude e escraviza.

     Carecemos de honestidade. É preciso escancarar a opinião falseada, rasgar o véu da hipocrisia, e denunciar os abusos de quem não aceita a subjetividade humana. Todo bom tradicionalista é um radical terrorista em potencial: o que lhe falta é coragem e um fuzil. Se escondem com a norma e com a religião, mas no fundo, seu instinto é a desumanização. Sua lâmina fere a todos. Reproduzem o inferno no agora.

     Desvelar a face oculta do ódio e da intolerância é expor ao ridículo quem ainda insiste no sistema de castas. Como diz o Paulo Brabo, precisamos abraçar a ideia de que todo ser humano nos representa. Compreender que todos somos complexos, ambíguos, e sistema moralista algum é capaz de dar conta da nossa humanidade. Não há tradição legitimada para sufocar a vida. Nenhum deus poderá nos dividir. Que sejamos, apenas, humanos.

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Um comentário sobre “Ódios e Armários

  1. Parece-me q só os humanistas tem passe livre para transitar em qualquer lado, direção, ou discurso. Eu sigo com eles, com vc, Yago. O ser humano me representa. Sigamos neste caminhar.

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