O Terno e o Eterno

Encontro

     Final do expediente. 18:00. Saio do escritório em direção ao estacionamento. Andando pela calçada, um homem me estende a mão. Um pouco apressado, tento avisá-lo que não tinha dinheiro, esperando poder continuar meu trajeto. Ele me toca. Era um homem franzino, usando chapéu, olhos vermelhos, cheirando a álcool, segurando uma caixinha com chicletes em uma mão. De cara, ele me diz: “O senhor é a-dê-vó-gá-do né? Eu sei reconhecer um” – diga-se de passagem, ainda não sou.

     Eu estava de terno e gravata, mas me vi inteiramente nu perante aquele senhor que clamava minha atenção. As palavras mal saíam de sua boca, caíam assim errantes, mal pronunciadas, muito provavelmente por sua embriaguez. Consegui entender que ele queria me mostrar uma perna, falava algo sobre um acidente. Ao olhar para baixo, vi sua perna fraturada, de uma forma que seu pé ficava um pouco de lado, e o osso fazia um ‘catombo’ no meio da canela. Enquanto ele tentava me pedir ajuda e, em vão, me explicar o acidente, eu me sentia mais vazio, pequeno, impotente, fraco. Percebi que nosso diálogo não daria frutos, mas permaneci ali escutando por um tempo, até que ele me disse para ir. Ainda um pouco atônito, me despedi, e pularam de minha boca, quase que por reflexo, um “Deus te abençoe”.

     Entrei no meu carro e pensei no assunto por todo o caminho. Me questionei, várias vezes, o que eu quis dizer naquela fala final. Já não creio num deus intervencionista que deve ser invocado para nos proteger das vicissitudes. Descreio do onipotente que nos comanda dos céus, e que promoveu aquele acidente por algum propósito irracional. Não aceito a muleta existencial das religiões, suas falsas esperanças e o conforto ilusório que enclausura incautos por todo o mundo. Aquilo me incomodou, temi ser mal compreendido por um homem que não tem muito o que esperar de deus.

      Senti um aperto no peito quando percebi que, enquanto eu dirigia para minha casa, ele continuaria pelas ruas tentando vender seus doces. “É melhor que roubar”, havia me dito quando mostrou sua mão. Refleti nos discursos que incansavelmente ouvi de quem, logicamente, tem o que comer e onde morar:  “Meritocracia; precisamos ensinar a pescar; não trabalha porque não quer;  não posso sustentar vagabundo”. Esse tipo de fala não é só ignorante mas também cruel. Nem meu terno, nem minhas leis, nem minhas filosofias, tampouco minha espiritualidade teria respostas para aquela cena. Somos todos culpados pela dor alheia. Percebi que aquele homem também não tem muito o que esperar do mundo.

     Fiquei em paz comigo mesmo ao descobrir que o que eu e ele falamos ou deixamos de falar pouco importou. Sim, certamente, aquele homem precisava de cuidados materiais, uma boa refeição, um banho, um teto e uma oportunidade de retomar sua dignidade, carências que eu, naquele momento, não conseguiria resolver. Houve, porém, algo maior e pude sentir: por um momento eterno ele se fez ouvido e eu me vi calado. Quando tocou em meu ombro e se apoiou em mim, já não havia rico nem pobre, branco nem negro, hetero nem homo, apenas o divino gesto da atenção. Supri, por toda eternidade, sua fome de atenção, e fui alimentado com uma doce empatia. Bebemos, juntos, a água das impotências, curamos certezas com dúvidas, nos saciamos com o vazio da existência. Por um momento, eterno, quando nos olhamos nos olhos, o mundo foi justo, as pessoas foram boas e a vida foi bela. Acho que éramos, eu e ele, Deus.

Talvez Deus exista quando amamos, talvez exista somente quando amamos.

– Paulo Brabo

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Um comentário sobre “O Terno e o Eterno

  1. “Bebemos, juntos, a água das impotências, curamos certezas com dúvidas, nos saciamos com o vazio da existência.” Esta foi minha parte preferida.
    Caí aqui por acaso, olhando grupos do Facebook de blogs literários, e me surpreendi. Que conteúdo lindo que você tem. E você escreve bem, tudo alinhado e ajeitadinho, com jeito de quem escolhe cada palavra com cuidado, para ver qual está mais madura.
    Visitarei seu canto mais vezes, com certeza.

    E espero que o homem do seu texto tenha encontrado águas mais reconfortantes, assim como você.

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