A Carência Eterna

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O projeto genoma trouxe consigo uma colcha de expectativas em torno do futuro da humanidade. A possibilidade de mapear o nosso material genético, para a existência, abriria um leque de possibilidades jamais imaginado pelo homem antigo. O fruto do conhecimento, mais uma vez, esteve em nossas mãos.

Religiosos de toda sorte alternaram entre temor e euforia na espera dos resultados. Enquanto alguns tremiam com as possibilidades de ver ruir a crença, outros, mais otimistas, enxergavam no projeto a grande conciliação entre fé e ciência. De alguma forma, as respostas finalmente nos seriam reveladas.

No campo científico, e principalmente para a medicina, as vantagens seriam inúmeras. O mapeamento genético representava a grande evolução humana desde o polegar. Supressão de genes insólitos, descoberta de patologias, personalização genética, praticamente tudo estaria contido no ‘Livro da Vida’, como se referiam os pesquisadores.

O Genoma revolucionou o mundo que conhecíamos. Entretanto, também foi mais um de nossos delírios de grandeza. Ainda desconhecemos as origens do câncer e como combate-lo efetivamente; as infinitas probabilidades em torno do desenvolvimento genético ainda são incontroláveis pelo homem; as influências do meio se mostraram igualmente necessárias para a caracterização do fenótipo; ainda somos pequenos, frágeis, mortais, e quase que insignificantes diante do Cosmos; Deus, até onde se sabe, não deixou assinaturas em nossos núcleos celulares.

Esse não foi, porém, o fim de nossas expectativas em torno do controle da vida. Ainda buscamos respostas que saciem nosso desejo de, simplesmente, saber. Contumazes, acreditamos estar conectados a algo maior, concreto, superior à toda fragilidade humana. Um deus, uma ordem, um logos, um arranjo universal axiomático. Um absoluto.

Falácias descabidas como, por exemplo, o mito de que não usamos cem por cento de nosso cérebro, ainda viram febre por entre os corredores escolares e as escrivaninhas de trabalho. Ainda que pareça loucura, quanta força fazemos para crer que, em algum lugar secreto dentro de nós, existe uma fechadura que destravará nossa força.

Somos vencidos por um mundo absurdo que destroi nossas utopias. Ainda assim, de alguma forma, vemos ressurgir das cinzas todas as expressões que dão ao homem a ilusão de preenchimento que acredita precisar. O iluminismo não destruiu as religiões tal qual o fim da modernidade não destruiu a ciência. Ambas, a seu tempo, de sua maneira singular, tornaram a angariar fiéis fervorosos em posse da grande Verdade.

Um outro fenômeno, de vetor inverso, ainda vemos surgir com o pós-modernismo. Após o fracasso dos grandes idealismos e niilismos religiosos e científicos, as respostas se esvaeceram, e com elas, ao que parece, se foram as dúvidas. Vemos alguns que, desprovidos de qualquer resposta, decidem simplesmente abandonar também as perguntas. Se pensar é começar a se atormentar, como pressupõe Camus, então o melhor é larga-lo. Basta, para esses, repetir os gestos, os costumes, as tradições, seguir as trilhas e viver em paz.

São pessoa desinteressadas por política, economia, saúde, filosofia, ciência, e tudo que requeira um uso maior das faculdades mentais. Num mundo capitalista, precisam acumular dinheiro, ter uma família, assistir televisão, e não se interessar por nada que os afaste do caminho bem sedimentado.

Em ambos os casos, estamos perdidos. Seja em posse da Verdade, ou desprovidos de verdade alguma, nossas potencialidades foram esmagadas e a vida desfaleceu. A arrogância suprema e o desinteresse crônico são igualmente criminosos, atacam o que nos faz humanos. São fonte de toda violência, toda desigualdade, todo descaso, todo ódio, todo poder, todo sofrimento, toda morte.

A carência eterna, talvez, seja nossa única potência. Só o reconhecimento de nossa pequenez, sem apelos para soluções metafísicas, pode preencher a vida com o que é belo. O amor surge, unicamente, ao reconhecer o outro como a água para toda sede. Só quem é incompleto, ama. Só quem é finito quer esgotar todas as possibilidades. Só quem é caído encontra no toque alheio a força para se levantar. Só na imperfeição é que Deus pode existir. Somos fracos, por isso amamos.

É o amor a força de todas as fraquezas.

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2 comentários sobre “A Carência Eterna

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