O Amor

Casamento

          Era um amor triste. Depois de abandonar as vestes de romantismo, o idealismo literário, a falsa perfeição, se viu perdido, distante, caído. O fraquejo de um amor desiludido é sempre como o pássaro que, depois de alçar os voos mais longínquos, quebra a asa e se vê preso à frieza do chão. Distante das nuvens, almeja os céus, mas encontra paredes por todos os lados.

          Quando foi amor, foi um amor roído, descabido, fraturado e exposto. Frágil, recorrentemente se prostrava a catar os pedaços de amor machucado que espelhavam o piso e tilintavam ao vento. Era um amor remendado, alquebrado, claudicante. Sua formosura era justamente a capacidade de reconstruções, uma coragem ardente para se refazer mesmo quando não há solo fértil.

          Quando olhou para si, aceitou-se como um amor incompleto. Sem delírios, queria mesmo ser inconsistente, falho, profundo, complexo, sombrio, velado, calado. Seria um amor diferente, desses que muitas vezes já nem se sentem amor, tamanhas as intermitências. Mas, afinal, era amor, e isso pudera ser reafirmado por tantas vezes que, quem sabe, só apertava cada vez mais o nó górdio que sufocava o peito.

          Já gostava de ser um amor bagunçado, desses que joga roupa por todos os lados, que com preguiça se lança no sofá e passa canais com indiferença. Via beleza num amor cotidiano, que não carece de trilhas sonoras, não se embala com grandes suspiros, nem almeja eventos grandiosos. Era amor, sim, certamente, mas não um amor cinematográfico, estético, dissimulado. Tinha fome de veracidade, só encontrada num rosto lavado, no corpo despido, nas mãos ásperas, no suor fino, no cheiro forte e na pele marcada.

          Se fosse amor, não o seria para prometer o impossível, beijar egos e domar emoções. Precisava agora de autenticidade, aspirava a dura realidade que impõe, só em nossos ombros, o peso do mundo. Queria marcar de sorrisos o amor sofredor, banhar de sentidos o profundo dissabor, viver os conflitos com todo ardor. Era assim, não novo, mas um velho amor, regado pelas lágrimas, mas também marcado pelas dádivas de saber quem se é. Era amor, sim, mas não um amor para sempre. Era amor para a gente.

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