Personagens

Coxia

“O ator reina no domínio do mortal. De todas as glórias do mundo, sabemos que a sua é a mais efêmera. E é também o ator quem mais percebe, entre todos os homens, que tudo deve morrer um dia. E para ele, não representar, significa morrer cem vezes com as cem personagens que ele teria animado ou ressuscitado”.

Albert Camus

As luzes se acendem e as cortinas se abrem. Em alguns instantes, o que era só palpitação e tremor se desmancha em gestos, ações e inações. O ator se lança de cabeça em mais um mundo absurdo, mais um cenário fantástico, mais um imaginário objetificado. Distraído de tudo o que é – se é que realmente o é – , transforma-se em outro, multiplica-se em inúmeras formas, pluraliza sua própria alma. Fragmenta-se.

Há algo inatingível ao ator: unidade. À ele, magistralmente, foi negado o cotidiano enfadonho que compartilham todos os seres mortais, o profundo dissabor de ser apenas um. Ainda que sejamos multifacetados, alternando constantemente entre os papéis que desempenhamos na organização social, o ator é a pluralidade por excelência. Só ele desempenhará as infinitas aparências que permeiam a humanidade.

Aplaudimos ao final não com algum senso crítico sobre a apresentação, tampouco pela abstração concedida naqueles breves minutos. Exaltamos sim nossa projeção sobre-humana de querer ser tudo o que há. No palco se exprimem todos os desejos mais profundos de encarnar outras vestes, de transmutar novos panoramas, de exaurir nossas paixões com vigor, de lançar fora todas as morais que esfacelam nossa face. De pé, agradecemos o glorioso espetáculo por também querermos deixar de ser estrangeiros a nós mesmos.

O artista precisa do palco como o corpo do oxigênio, pois só ali, no calor da iluminação, no suor a escorrer pela madeira, nos olhares atentos da plateia, no fervor das falas que surgem sem pedir licença, são inteiros. Sem o ato, já não são, porquanto tudo que possuem é de outrem. Ao vestir a personagem, se recobrem de sinceridade, verossimilhança e vida. Mudam de pele, corpo e alma.

É paradoxal que o ator, imitador em sua essência, seja único em despir-se de máscaras. Seu ofício – que logo se transforma em modo de viver – é a chave libertadora do desejo humano de alteridade. Ao contrário dos espectadores que soçobram suas paixões com a força das tradições, o ator se revela ao abraçar as mais diferentes formas que o palco da vida lhe oferece. É assim que, ao invés de atuar, simplesmente age. Não existem medos, receios, cobranças nem leis que o segurem, são soltos para transmitir liberdade e vigor à apática audiência.

Todo ator é libertário pois não há nada mais transgressor que ser o que se é. Ao contrário de todos os demais, só eles possuem o aval de vivenciar as mais sombrias, excêntricas e díspares paixões humanas. Te invejo, ator, que enfim pode dar vida ao aforismo socrático, que não suportará os olhares pesados de quem impõe expectativas sobre nós.

Sua maldição, como já dito, é a dependência. Feito vampiro, se alimenta do sangue alheio, carece da vida de terceiros, para sobreviver. O prazer, porém, é recompensante. O esgotamento de oportunidades e formatações é seu grande trunfo. Já não precisa dos aplausos, dos elogios nem dos sorrisos. Não se interessa pela opinião. Tudo que lhe é importante está diante do espelho: Olha e se vê muitos. Se desconhece na multidão de desejos que encarnou. Vivera incontáveis e eternas vidas.

Anúncios

2 comentários sobre “Personagens

Seria um prazer se você deixasse um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s