Porque Sim

Soldado contra Criança

A clássica pergunta infantil para todos os momentos sempre foi: por quê? Diante de qualquer acontecimento que desperte o interesse, mas que, por uma ainda limitada compreensão de mundo, não se é possível explicar, o questionamento surge quase que de forma inconsciente, como que deslizando da alma, agitando as cordas vocais suavemente e, num pas-de-deux com o emissor, sai ao mundo em busca de saciedade. A criança tem fome de saberes, sede de razões e anseios de descobrimento. Sua vocação é de investigador contumaz, aquele que não interromperá a excursão enquanto não colocar os ‘pingos nos is’.

O poder, por sua vez, nasce das respostas. Certamente que não das explicações bem desenvolvidas e fundamentadas que satisfariam, ainda que provisoriamente, a ânsia do questionador, mas as tacanhas e simplórias que pretendem unicamente pôr um ponto final naquele assunto. Alavancar-se em poder é amealhar certezas e tergiversar perguntas; uma eterna exclamação que assassina toda e qualquer interrogação. Quem almeja dominar tem de estar pronto a parecer sólido e imponente, erigido em pedra e sob raiz bem fincada. Nada exala mais segurança que o poder.

A figura do pai é sempre reveladora. Ao se ver interrogado pelo filho que, sem piedade, desfere as mais criativas e afiadas perguntas, o desespero entra em cena. A relação familiar bem reflete todo o desenvolver de nossas relações sociais justamente por ser a família nossa primeira vivência interpessoal: O lar é a primeira sociedade e o pai nosso primeiro rei. Não é de se espantar a angústia de ver-se o rei sabatinado pelo súdito, afinal, poucos deslizes seriam suficientes para fazer ruir toda aquela estrutura de poder.

O porquê representa uma afronta, a blasfêmia imperdoável, pois escancara a realidade de que poder algum pode ser legitimado pelo próprio poder; mais que isso, o acúmulo de dúvidas deixadas sem respostas leva a crer que poder algum é legítimo, já que todos carecemos das mesmas certezas. Se o rei alcançou seu trono baseado na concepção ilusória de ter maior compreensão da vida e seus desdobramentos, dar espaço às incertezas é vestir fraldas e tornar ao berço. Temoroso de perder o respeito – eufemismo comumente usado pelas tiranias para impor o medo -, o pai precisa rechaçar sumariamente aquelas dúvidas indecorosas.

A consequência lógica é a agressão. A representação sólida do poderoso deságua na fortificação, no imaginário do súdito, que atitudes insurgentes serão recompensadas com dor. Dentro desse ambiente hostil, onde perguntas geram gritos e violências, não demora para que a criança associe dúvida a sofrimento. Não há nada mais perigoso para uma hierarquia que uma criança – plena figura do questionador – , assim como nada é mais repressivo para uma criança que um tirano, pronto para reprimir desacatos de autoridade.

Tradição e legislação completam as amarras à pueril humildade de se reconhecer incompleto. A revolta generalizada de pais, sacerdotes, militares e demais homens da ordem contra homossexuais, polígamos, ateus e anarquistas, afluem da mesma nascente. Sua aflição é ver ameaçado o status quo, em que edificaram seu poder, pela força arrebatadora dos transgressores. Mais uma vez, crianças imperfeitas se apresentam mais perigosas que a montanha de seguranças do pai.

Toda ilusão de grandeza, geradora de poder e dominação, é nefasta, porquanto nos afasta da descoberta socrática: sabedoria é reconhecer nossos limites. É tola por nos afastar da vida, e tirana por querer afastar os demais. Ao seu revés, espíritos puramente libertários, e portanto infantis, herdarão o reino dos céus. O verdugo, vejam só que paradoxo, é o verdadeiro refém; a cabeça, a rolar, encontrou a liberdade.

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