Mitologia, eu quero uma pra viver.

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O senhor senta, junto ao menino, na varanda da casa. No olhos refletem o brilho das estrelas que, despretensiosamente, aponta com o braço direito. Com ar de serenidade, que transforma qualquer fala em demonstração de sabedoria, anuncia: lá vive um príncipe. Ao menino, a cena é vulgar, como se o velho questionasse, ou se atrevesse a ridicularizar, sua inteligência. Com prontidão, trata de abaixar o braço estendido do homem e logo deixa claro que já não acredita nesse tipo de bobagem. Um outro garoto, que escutava o diálogo dali perto, se vira interessado nos desdobramentos daquele mistério. Um príncipe? Que príncipe? De onde ele vem? O que ele faz? Se é príncipe, por que vive sozinho? Até onde se sabe, não existem limites para as interrogações infantis – ou talvez, esse limite seja, justamente, o tornar-se adulto.

O prosseguir da barata fantasia, aos olhos do desinteressado, o irritava profundamente, uma vez que não compreendia o porquê de ignorarem seus protestos. Sua birra, felizmente, não interrompeu o desenrolar da história de Exupéry, o conto existencialista que intriga pequenas e grandes crianças. Cada sinal de interesse expressado pelo outro garoto perfurava o menino que preferia se manter no alto de seu ceticismo. Não daria espaço para uma imaginação que o impedisse de enxergar a realidade, ou o que é mais grave, uma em que deixaria de estar certo. Ficaria com a mente, nem que isso lhe custasse toda diversão. Aquele momento, porém, jamais lhe sairia da cabeça.

Eu sei, uma abordagem tipicamente nietzscheana, me diriam os mais formalistas, deveria começar com um tipo de acidez que lhe era muito peculiar. Reconheço que uma parábola sobre meninos e príncipes não provoca tanto quanto afirmar que Deus está morto – e que nada deveria ser posto em seu lugar. Entretanto, os mais atentos podem reconhecer que é de uma altivez imensa, e indubitalvemente nietzscheana, relacionar uma memória de infância com a mudança de ordem filosófica ocorrida na Grécia, a qual alterou para sempre a forma que enxergamos a vida.

Aprendemos, nas incansáveis aulas de história, que a passagem do mito ao pensamento racional, capitaneado por Sócrates e Platão, representou uma tremenda superação em nossa forma de enxergar o mundo, e que só através dela é que foi possível avançar cientificamente. Não raras vezes escutamos que a filosofia surgiu com os gregos, filha primogênita de Tales, e nos colocamos a duvidar se não existia o amor ao saber em outros lugares e em outros tempos. Sim, nos é fácil acreditar que não há outro modelo de cosmovisão senão pautado pelo método lógico-racional, e, tal qual colonialistas, que detemos a evolução do intelecto.

Se Nietzsche deseja libertar nossa potência, é por enxergar que aceitamos muito facilmente o aprisionamento racional que nos foi imposto. Se, tomado por seu pedantismo, decidiu inaugurar uma filosofia antenada e extraída da vida real, concreta, tangível, foi por não suportar o niilismo que sufoca a capacidade e a necessidade de viver. Ressuscitar Dionísio, vejam que irônico, um deus, era o único fôlego possível para que o homem tornasse a dançar.

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música” – Nietzsche

Há uma leitura, contaminada por um racionalismo perverso, que trava nosso desejo dionisíaco. Esse método olha para o mito com desdém, desconsidera as nuances sensíveis da poesia, trespassa a profundidade da metáfora e faz do belo, o horror. Precisamos lembrar do Éden: o texto, apesar de gritar seus elementos lúdicos, apresentar um cenário simbolista e oferecer entrelinhas a serem descobertas, é utilizado de forma pobre para sustentar literalismos descabidos. Religiosos e cientistas que se apropriam da metáfora, trazendo-a ao concreto, assassinam a própria vida.

Se nos focarmos na mitologia grega – e aqui mais uma vez a ironia joga ao nosso desfavor, já que criticamos a concentração helênica – perceberemos uma sinergia que ao homem ocidental, platonista e cartesiano, soa como involução: pouca distinção há entre arte, religião, ciência e vida. Em seu livro ‘Os Gregos Acreditavam em Seus Mitos?’, Paul Veyne sugere que temos a tendência de julgar como verdade apenas a ‘última descoberta da ciência’, tomando como delírio tudo que lhe é passado. Partindo dessa perspectiva, nos parece que o próprio questionamento inicial carece de sentido, já que o acreditar denuncia uma concepção lógica-racional.

O literalista sente o doce, amargo. Em outras palavras, diante da grandeza da Odisséia, ele é quem questiona a existência histórica de Homero. Ao religioso, paradoxalmente, o acreditar em Deus é de ordem materialista, pois resume sua expressão de fé numa certeza absoluta de sua existência no mundo concreto. Já o cientista, em seu próprio paradoxo, vê o esforço de negar absolutamente a fantasia se transformar em ordem de fé, quando carece de evidências lógicas. Em ambos os lados, o mundo perde seu infindável mistério para ser o infindável tédio.

Suspeito que nossa sede de beleza venha da feiúra que nos encabrestou. Talvez, tenhamos nos permitido, por tempo demais, atuar como o mesmo garoto que desacredita das histórias de seu avô. Tornamo-nos intransigentes, ranzinzas e soberbos, frequentemente assaltados pelo impulso de acertar as lógicas, desenhar os métodos, estruturar os problemas e encontrar as soluções. O sabor da vida, contudo, só o saberá quem viveu.

Dance.

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