Quarto da Saudade

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Entrei na casa que habita dentro de mim e me perdi entre seus vastos corredores. Há quanto tempo os detalhes do casarão não eram percebidos por aqueles olhos, sempre distraídos, que nem de soslaio ousavam imergir nas profundezas de si – olho para fora é invenção moderna, dessas criadas para sempre nos ausentar, no que caberia a explicação dos poetas que olhar verdadeiro não enxerga luzes, mas almas.

Havia pelo fundo uma porta antiga, de madeira pura, já desgastada pelos anos de uso e empoeirada pelo esquecimento. Lá morava um quarto que nem a própria casa da memória gostava de lembrar, e por isso restava no fundo escuro e abandonado de um corredor desimportante. Mas, como curiosidade infantil se alimenta por conta própria, o garoto que descortinava os passadiços sentiu uma atração irresistível pelo antigo quarto.

Abriu-se a porta e entendera o desamparo: ali vivia a lembrança do que já não existe. Veja, quarto é uma dimensão mágica da alma interior. Suas paredes abrigam segredos, travesseiros protegem sonhos, lençóis acobertam medos e prateleiras exibem felicidades. Se este era o quarto do que não existe, adentrá-lo significava transportar-se ao irreal – algo que meninos e poetas inventaram e os teólogos tentaram se apossar.

Irradiante, sobreveio um desejo ardente de rearranjar aquelas recordações. Se pro Chico saudade é arrumar o quarto de quem morreu, talvez ir ao céu seja entrar no quarto de quem já se foi. Céu é saudade alimentada por lembrança, encontro possível do irreal com o real, só alcançado por quem reaprende a olhar almas.

Essas arrumações me mostraram as conversas que nunca tive com você! Como não disse que cresci e mudei, já não resisto tanto para comer uma sopa, mas acordar cedo continua um problema? Como não corri para te convidar ao meu casamento, não te procurei quando tive medo, nem mesmo sorri tuas risadas por ter passado no vestibular? Por que não te abracei nos dias frios nem te acalmei nos mais sombrios?

Ainda guardo, nessa casa, tantos pedaços que são teus. Tomei para mim teu olhar doce para com o mundo e sua risada alta, tão alta que parecia zombar, aos quatro cantos, da miséria de uma vida absurda. Assim, me pego também zombando da ciência médica que sempre te diagnosticou com doença cardíaca. Não eras tu quem estava doente, e sim o mundo: teu coração nasceu pequeno para tanto amor.

Deusa do sofrimento, foste gerada nas entranhas da terra, parida do próprio ventre de Gaia. Suas dores não eram físicas, mas espirituais! Oh, minha mãe, por que num surto de sensibilidade tomaste para si a dor universal e resolveste chorar as lágrimas da humanidade? Tua pintura tem a cor azul de Picasso e a realidade dilacerante de Frida Kahlo. Precisei contemplá-la mais uma vez para reviver-te em mim.

Voltei ao teu quarto, então, para dizer o que já não podes saber, porque saudade também é conversar com a ausência. Arrumei teus segredos, mesmo os que nunca me contaste, e vasculhei cada espaço em busca de tuas dúvidas mais obscuras. Agora entendi o porquê de Drummond e Rubem Alves insistirem que saudade não é falta: estava eu, agora, preenchido de tuas tardes de inverno, imerso nas águas do que foste, banhado do amor que, de uma forma ou de outra, encontras um jeito de enviar. Saudade é amar o que ainda existe no coração.

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