Perigosos Tempos aos Sonhadores

Flor-no-chão

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner

A sociedade de mercado pressupõe a valoração financeira de todos objetos componentes da existência humana. Se no positivismo de Augusto Comte todos os fenômenos sociais poderiam ser reduzidos a leis, o capitalismo globalizado apregoa a redução da vida ao cifrão. Ou, como bem afirma Giorgio Agamben: “Deus não morreu, ele se tornou dinheiro”.

Parecem ser tempos difíceis aos sonhadores. Os sonhos são sempre abstrações da realidade, mas não de uma forma niilista, não nos alienando e nos fazendo negar a vida; sobretudo, os sonhos são molas propulsoras de transformação, devaneio de quem se permite imaginar novas possibilidades, alternativas, evoluções, melhorias. Só sonha quem acredita que a vida pode ser maior que si mesma.

Lagarta sabe disso. Não fosse nossa altivez genética, poderíamos aprender com esse singelo exemplo da natureza – sempre tão rica em sábias metáforas – que é preciso sonhar para evoluir. Antes de criar asas, ela se fecha em um casulo, esquece do mundo ao seu redor e se põe a sonhar. É a força da fantasia transmitida à realidade que faz uma lagarta, rastejante e horrenda, se transformar em uma borboleta colorida, voadora e bela.

Sonhos, então, também são processos de morte. Quando um surge, também morremos para a vida de outrora, também deixamos de ser lagarta e focamos na borboleta a ser alcançada. Por isso Rubem Alves sugere: “A alma é uma borboleta. Ela não está submetida às leis que regem a vida comum das criaturas que moram no tempo, e que nascem, crescem, amadurecem, apodrecem e morrem. A alma, como a borboleta, é um ser de ressurreições”. Pra ressurgir é preciso morrer. Para morrer é preciso sofrer.

Muitos homens gestaram sonhos incríveis: Thomas Morus e sua Ilha de Utopia, onde “embora ninguém possua coisa alguma, todos são ricos”; Karl Marx e Engels, na sua revolução proletária inexorável, que alcançaria o fim da dominação de classe; Papa Francisco e sua encíclica da ecologia integral; são alguns poucos exemplos para relembrar, a nós todos, que existem pessoas interessadas em transformações.

Jesus de Nazaré também almejou um mundo justo e igualitário. Abstraindo toda a realidade, tendo a vida como substrato de metáfora, anunciou um Reino diferente dos concebidos pelos homens, distante das estruturas de dominação, poder, ilusão e opressão. O Reino de Deus é um sonho nazareno, que, como diz Nietzsche, “não é algo que se espere; não tem um ontem e um depois de amanhã, não vem dentro de mil anos – é uma experiência num coração; está em toda a parte, e não está em parte alguma…”

Coerente com esses ensinamentos, os apóstolos do livro de Atos bem tentaram uma comunidade utópica, antecipando os conceitos de Morus e até de Marx:

Da multidão dos que creram, uma era a mente e um o coração. Ninguém considerava unicamente sua coisa alguma que possuísse, mas compartilhavam tudo o que tinham.

[…]

Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um.

Atos 4:32;34;35.

O Sonho Impossível de Chico crê no fim da infinita aflição, seja lá como for. Mas para isso, há de se sofrer a tortura implacável, lutar quando é fácil ceder e vencer tantas guerras por um pouco de paz. Esse sofrer e essa morte, que possibilitam o sonho desaguar na existência, são a única forma de transformar nossa realidade de lagarta em exuberantes borboletas.

Acontece que a sociedade de mercado sabe disso. Já assimilou que a força dos sonhos é capaz de alterar a realidade, revirar desigualdades, subverter sistemas, e que essa é uma forte, senão a mais temível, ameaça ao lucro. O desejo do capital é a manutenção de sua Ideologia, que para Boaventura de Sousa Santos, possui entre suas características uma autonomia individual “que deve assim ser entendida como um compromisso pessoal do indivíduo com um mundo pré-formatado e imutável” e que também “trata-se de uma forma ideológica de um pós-Estado, pós-social, com um poder estrutural extremamente concentrado por meio do qual os cerca de 1% da população global governam os 99% da população empobrecida do mundo”.

O mercado, como qualquer ideologia, só funciona com lagartas. É preciso ratificar, no imagiário coletivo, que a única vida possível e justa é a regulada pelos imperativos do sucesso e do lucro, e como é um sistema de aparências, esses imperativos são apresentados como possibilidades teoricamente tangíveis, mas que, na realidade, jamais poderia ser alcançado pelos 99%, sob pena de total bancarrota de sua estrutura.

A sequência lógica será, necessariamente, a vilanização ou ridicularização de toda bandeira sonhadora. A teologia capitalista opera baseada em certezas, aspectos concretos, palatáveis e simplistas, o que a torna de fácil assimilação. Após boas doses desses absolutos, dificilmente o indivíduo mercantilizado será capaz de enxergar qualquer valia em sonhos, dúvidas, incertezas, sofrimentos e mortes. Traga minha Coca-Cola e fodam-se as borboletas.

Aliás, esse aspecto sectarista e axiomático é o ponto em comum entre a teologia de mercado e a teologia fundamentalista, o que explica não sabermos mais distinguir pastores e banqueiros. Num panorama geral, fé torna-se investimento a longo-prazo, dízimo é usura, obras são subscrições de títulos, Deus é segurança jurídica e Céu é retorno capitalizado – lucro.

A frustração de Marx, caso fosse possível fazê-lo hoje, seria perceber que, ao invés de sua previsão escatológica de que o modus operandi burguês conduziria, necessariamente, à revolução proletária, houve a expansão proselitista e religiosa de Mamon aos quatro cantos da terra, também chamado globalização. 

Mais que integração entre os países e derrota das distâncias geográficas pela internet, a globalização é também a vitória burguesa pela expansão capitalista por todo o globo, capitaneada pelos Estados Unidos da América e pela Europa, respectivamente, a nação regida pelos ungidos de Deus e o território histórico da dominação da Santa Igreja.

Em Trainspotting, Renton introduz o filme com uma fala profunda e complexa:

Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadora, carro, CD Player e abridor de latas elétrico. Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. Os motivos? Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?

Viver, para ele, também significa imergir na ideologia burguesa, afastando o indivíduo do absurdo e da angústia pela criação de um modelo de vida maquinal, padronizado e bem estabelecido, evitando que se sinta responsável pela realidade e que questione o establishment. Essa também é a expressão de um modelo niilista, assim como o progresso modernista e o cristianismo o eram para Nietzsche.

Só a escolha dessa não-vida é capaz de contrariar os interesses do capital. A heroína não é uma fuga da realidade, o que também seria niilismo e o faria negar o absurdo. A heroína é o sonho, dionisíaco e até certo ponto hedonista, de se ver livre da industrialização da existência, da linha de produção burguesa, da uniformização humana. A batalha de Renton e seus amigos é para alcançar uma liberdade existencial que os permita decidir os rumos de sua vida, no que são assaltados constantemente pelos representantes do sistema: pais, juízes e policiais. Seu crime foi a insubordinação de não viver.

Talvez, os sonhos intranquilos que pertubaram Gregor Samsa antes de se ver metamorfoseado em barata inseto foram, justamente, as lembranças de sua vida prosaica como caxeiro-viajante, tomando o trem às 5 da manhã todos os dias para pagar a dívida de seus pais. Parece, então, que a metamorfose não foi tragédia, mas sua libertação. Gregor se viu livre da vida maquinal, mergulhou no absurdo, e por isso mesmo sua família o abandona a própria sorte: o mercado transforma todos os estranhos ao seu modo de vida em insetos asquerosos. Mas Franz Kafka sonhou um mundo diferente.

Eduardo Galeano nos conta uma resposta dada por Fernando Birri, diretor de cinema argentino, que ao ser perguntado por um estudante para que serve a utopia, nos diz:

A utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, que se eu caminhar dez passos ela ficará dez passos mais longe. Quanto mais eu a buscar, menos a encontrarei porque ela vai se afastando à medida que eu me aproximo. Pois a utopia serve para isso: nos fazer caminhar.

Não foi por acaso que a sociedade de mercado tratou de cunhar um sentido pejorativo à utopia, como sendo uma ilusão ou tolice. Caminhar rumo à utopia é prova de insubordinação, desejo ardente de mudança, sonho que pode transformar a realidade, o que, como já dito, ameaça o lucro. Sonhadores são inimigos públicos do mercado.

Realmente, são tempos difíceis para os que, tal qual John Lennon, acreditam em um mundo sem céu e inferno, sem religião, sem motivos para matar ou morrer, com homens vivendo para a vida, em paz, sem posses, ganância ou fome. Uma irmandade de homens que escolheram transformar-se em borboletas.

Ainda assim, a utopia, o sonho, a imaginação nos move adiante. Quem sabe, um dia realmente veremos uma “flor brotar do impossível chão.”

* Ideologia, em Karl Marx, assume o conceito de manutenção de sistema de dominação através de processos de falseamento da realidade.

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