Anônimo – Uma Peça do Absurdo

Anônimo 5 - Foto Daniel Pátaro

Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num universo repetinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro.

Albert Camus

Na solidão de um quarto escuro, um corpo se mexe. A dificuldade com que movimenta suas articulações e a letargia que supera suas tentativas de despertar, talvez, representem bem o estado psicológico de quem levanta apenas por atitude protocolar. Ao redor, poucos objetos compõem um cenário lúgubre; realmente, não existem razões para sorrir ou mesmo para continuar. O ato de acordar chega a transformar-se em um instinto suicida que almeja a liberdade daquele estado mórbido. Entretanto, nos parece que aquele homem estava condenado à existir.

‘Anônimo’, monólogo magistralmente conduzido e concebido pelo ator Eduardo Albergaria, recém-chegado à capital paraibana, traduz a miserável condição humana, fadada à repetição eterna de movimentos carentes de sentido. A personagem não tem nome nem história pois todos podemos nos colocar em sua própria pele e encarnar o avanço maquinal daquela rotina. Sem espaço para questionar o porquê daquilo tudo, também nós prosseguimos, claudicantes, ao som do relógio e em direção ao nada.

Interessante como a peça, apresentada inteiramente sem falas, diz mais do que pretende. Seu convite para que a audiência preencha os espaços vagos de sua construção, ao mesmo tempo que fascina, não deixa de ser uma constatação de nossa carência eterna, a incompletude que permeia nossa existência. Por isso, mesmo suspeitando dessa armadilha perspicaz, não consegui evitar de enxergar na montagem uma sintonia perfeita com a filosofia do absurdo, bem exposta por Albert Camus em seu “O Mito de Sísifo”.

No ensaio, Camus observa que o suicídio é o verdadeiro problema da filosofia. Em suas palavras, “julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. É exatamente nesse olhar ao abismo que surge o homem-absurdo, que se percebe sempre vencido por um mundo que avassala seus sentidos, destrói seus selos, sua sensação de segurança e a nostalgia de unidade. Desconfiado de sua própria razão, sem nunca negá-la, e destituído das pretensões de compreender o imponderável, o que resultaria no suicídio filosófico pelo salto ao irracional, “quer enumerar o que não consegue transcender”.

Meu raciocinio deseja ser fiel à evidência que o despertou. Tal evidência é o absurdo, o divórcio entre o espírito que deseja e o mundo que decepciona, minha nostalgia de unidade, o universo disperso e a contradição que os enlaça.

[…]

Não pode ser uma questão de disfarçar a evidência, suprimir o absurdo, negando um dos termos de sua equação. É preciso saber se pode viver nele ou se a lógica manda que se morra por ele.

[…]

Não sei se este mundo tem um sentido que o ultrapassa. Mas sei que não conheço esse sentido e que por ora me é impossível conhecê-lo.

O homem maquinal, representado em cada movimento mecânico reiterado pelo impulso do costume, não consegue alcançar a alegria por não perceber sua própria condição. Almeja manter a unidade de seu mundo particular, entrando em pânico a cada descontrole contingente; permanece atormentado pelo toque do relógio, oprimido pelo tempo implacável, pois não entendeu que o reconhecimento do absurdo nos leva a constatar nossos próprios limites.

Sua desventura carece de emoção: acorda, organiza a cama, prepara a mesa, rega a planta, come, toma banho, trabalha, dorme. Como Sísifo, rola a pedra que diuturnamente irá tornar ao ponto de partida. Nada constitui elemento concreto que o mantenha nesta vida, mas existe um apego incompreensível que o faz permanecer. Vez por outra, imagina se confundir com os elementos que o rodeiam, ansiando que, assim, se tornará parte entranhada deste lugar; como sempre, é vencido, jogado para fora do mundo que “nos escapa porque volta a ser ele mesmo. Aqueles cenários disfarçados pelo hábito voltam a ser o que são. Afastam-se de nós”. 

A obra absurda exige um artista consciente desses limites e uma arte em que o concreto não significa nada mais do que ele próprio.

A relação que pretendemos fazer entre a filosofia camuseana e o monólogo se solidifica com a atenção especial dada ao Ator pelo ensaio, como já demonstramos outra vez no texto Personagens. Para Camus, o ator consciente do absurdo percorre a vida tirando proveito da trágica condição humana de repetição eterna. Já desinteressado em explicar, quer exaurir as possibilidades, vivificar infinitas personagens, multiplicar sua própria existência. Não resolve nossos conflitos nem oferece certezas que tragam segurança: apenas ilustram e esgotam o que está posto.

Bem por isso, ‘Anônimo’ é uma obra absurda que, se valendo da metalinguagem, nos apresenta ao absurdo e denuncia a lassidão desse hábito. Principalmente, toda a obra é um convite estendido para que percebamos a realidade tal qual ela é e aceitemos o complexo e doloroso processo de desilusão.  Se não é possível fugir da condenação olímpica ou evitar o relógio que curva a fronte, nossa luta é para que, tal qual Sísifo, do alto da montanha no instante em que avista toda sua conjuntura, sejamos felizes.

* A foto em destaque foi tirada por Daniel Pátaro, e pode ser encontrada no hiperlink acima, de nome ‘anônimo’.

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