Uma Fronteira de Humanidade

Ainda está fecundo

e procriando o ventre de onde isso

veio engatinhando.

Bertolt Brecht – A resistível ascensão de Arturo Ui

Acuado em sua terra natal, carente das mínimas condições de sobrevivência, o desespero joga ao mar quem cultiva as últimas gotas de esperança. Seu grito, inaudível do alto da montanha do capital, apela ao senso de humanidade que espera-se encontrar por trás das barreiras do dinheiro e do egoísmo. Não se dirige à nações soberanas, cúpulas políticas ou fronteiras militares, entes despersonalizados e impassíveis; busca o refúgio de quem o reconhece, ainda, como gente.

Mas preciso dizer que estas palavras não pretendem, apenas, fazer côro à comoção popular que se espalhou pelas redes sociais com a triste foto do menino sírio, que beijava as areias da praia como a Severina, também descobrindo a parte que lhe cabia daquele latifúndio. Tampouco, busco eu explanar com exaustão as origens da crise migratória que assola o Velho Mundo. Ou melhor, que assola os que precisam adentrá-lo. Há uma intuição, porém, de querer falar o pouco dito.

Podemos dizer, se me permitem o exagero estético, que Sartre foi, por um lado, o grande libertador de nossa consciência, e por outro nosso temível algoz. Ao nos trazer a percepção de nossa liberdade, jogou sobre os nossos ombros todo o peso do mundo, a imposição de decidirmos por todos os homens e a impossibilidade de não tomarmos uma escolha. Ainda tenho dúvidas sobre a extensão dessa liberdade, mas posso dizer que sim, somos todos culpados.

Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer.

Jean-Paul Sartre – O Existencialismo é um Humanismo.

Quando encontrei um texto pavoroso da Bráulia Ribeiro, uma decadente articulista (como reconhece em sua redação) e missionária evangélica, dissimuladamente intitulado de “Não tenho culpa pela tragédia do menino sírio”, não pude deixar de lembrar do francês e perceber que não existem limites para o cinismo imperialista que legitima o abandono de pessoas e se exime da responsabilidade perante as injustiças. O “dever moral de defender suas fronteiras”, invocado pela colunista como mandamento sagrado, é a prova que para os interesses das classes dominantes há uma aura divina inexpugnável. Esse Deus precisa ser morto mais uma vez.

É preciso pontuar, evidentemente, que nem os conflitos no oriente nem o surto migratório são frutos do acaso. Em última instância, foi o Imperialismo norte-americano o produtor das intervenções militares naquela região, o que desestabilizou a ordem política local e permitiu a luta por poder empreendida por grupos extremistas, como corajosamente apontou a China em suas últimas declarações. O ISIS é um filho do Tio Sam.

Por outro lado, a indolência européia perante a morte dos imigrantes tem raízes profundas na construção do Estado Moderno pela sociedade burguesa que, erigindo o mito da nação, implantou as fronteiras repressivas e burocratizadas que fomentam a divisão de classes mundial. Ou, como melhor analisa Paulo Brabo:

Passados vinte e cinco anos, estamos ainda adiando a compreensão do que deveria ter se tornado óbvio: o mundo globalizado é uma mentira útil. O planeta está tão nacionalista quanto o que desencadeou as Grandes Guerras, o fascismo vai bem – obrigado, – e as fronteiras nunca foram tão explosivas e vigiadas. O mundo não está só fragmentado como jamais esteve, mas cada fragmento toma as maiores precauções para não ter de se misturar com os demais.

Paulo Brabo – Uma Mentira Útil

O somatório desses elementos, quais sejam o cinismo irresponsável, a legitimação religiosa, a sanha imperialista, os interesses capitalistas e a ode chauvinista, revivem um terror que Hannah Arendt julgava ser unicamente do Século XX: o fascismo. É bem por isso que Leandro Konder nos alerta para a permanência do germe fascista, pois “as condições em que funciona hoje o capitalismo monopolista de Estado estimulam no grande capital a tentação do fascismo. Essa tentação tem sido suficientemente forte para que algumas formas da política fascista ‘clássica’ (dos tempos de Mussolini e Hitler) sejam autorizadas a sobreviver[…]”.

Me julgas exagerado? Basta ver a recente burocracia imigratória instituída pela República Tcheca aos estrangeiros clandestinos que adentram seu país, agora cruelmente identificados e marcados no próprio corpo, onde qualquer semelhança com as faixas da Estrela de David não pode ser ser mera coincidência. Parece-nos certo que um velho espectro ronda a Europa – o espectro do fascismo.

Recorro à Paulo Brabo pela derradeira vez para respaldar essa temerosa intuição:

Nosso problema é que enten­de­mos ime­di­a­ta­mente que nenhum estado se mostraria capaz de fornecer educação, rede sanitária, pre­vi­dên­cia social e assis­tên­cia médica a uma multidão indis­cri­mi­nada de imi­gran­tes. Essa convicção é com­bus­tí­vel de todos os focos do fascismo: a aversão aos estran­gei­ros nos países mais ricos é sus­ten­tada em grande parte pelo medo que gente estranha venha sugar os bene­fí­cios e recursos (por definição limitados e fre­quen­te­mente insu­fi­ci­en­tes) que o estado deveria reservar para os cidadãos.

Enxergar com clareza a situação atual da crise imigratória implica em um olhar dúbio, com dois âmbitos que se encontram no horizonte: entender que o temor xenófobo é implantado para a manutenção dos privilégios de uma pequena parte da população; perceber que é preciso superar as fronteiras que nos afastam do senso de humanidade. Todos partilhamos, miseravelmente, da carência eterna, e esse é o nosso elo.

E é por isso que tanto Sartre quanto Dostoiévski e Kierkegaard estavam corretos: respectivamente, nossa liberdade impossibilita subterfúgios; se tudo é permitido, somos todos culpados; o olhar ao abismo nos angustia por sermos livres para pular. A realidade necessita que assumamos a posição de agentes da história, capazes de combater o establishment e transformá-la. Esse sangue está em nossas mãos, mas a possibilidade de evitá-lo também está.

Há muitas fronteiras que nos separam. Confortáveis, por tantas vezes somos incapazes de perceber que essas barreiras não existem, mas foram criadas para manter privilégios e regalias por um alto preço: a vida dos que sustentam esse sistema desumano. Todavia, existem alternativas plausíveis, e basta um olhar mais atento e interessado para enxergá-las. Se muitas oportunidades foram dadas para acentuar esse desequilíbrio, em todos os tempos também foi possível vencer a exploração do homem e alcançar a igualdade. Esse é o nosso tempo. Essa é a nossa urgência.

Humanos do mundo, uni-vos!

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