Entre a Cegueira e a Lucidez

Hope

Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações.

Chico Buarque

A bem da verdade, nunca procuramos clarividência em momentos de frustração. Com a destruição de nossas expectativas e oportunidades, também deixamos esvair a luminosidade ao nos debruçar sobre um abismo sombrio, e como não somos feitos para enxergar em meio às trevas, perdemos a noção da realidade que se encontra ao derredor. As mágoas de um coração traído deixam marcas irracionais em nossa alma.

Mas enquanto tocava a música, parei para escutar a letra e decifrar as entrelinhas. Perecebi que fomos assaltados por uma letargia, vertiginosa, insidiosa, que fora preenchendo nossas veias e se espalhando por cada fonte de vitalidade. Com a frustração, segue-se a cegueira, que como afirmara Saramago, “também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. Sim, fomos feridos e surrados, atacados e humilhados, mas de onde vêm os murros?

Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.

José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira

É certo que, apesar das fortes tentações para que nos lancemos em maniqueísmos, sempre rasos e ineficientes, precisamos recobrar o que a decepção nos furtou: lucidez. Para derrubar as bases do que nos aflige e, assim, vencer o ácido corrosivo que nos impede de avançar, necessitamos ir além do senso-comum, abandonar as respostas que logo correm à mente, e escavacar cada milímetro do problema. Em todos esses anos, eu bem sei, nunca encontramos solução na superfície.

É regra invariável do poder que, às cabeças, o melhor será cortá-las antes que comecem a pensar, depois pode ser demasiado tarde.

José Saramago – Ensaio sobre a Lucidez

Com a vitória de Dilma nas eleições passadas, todos que se encontravam à esquerda aguardaram, ansiosos e esperançosos, que esse Governo avançasse ainda mais nas conquistas sociais que, apesar de tudo, alcançamos nos últimos anos. Fomos às ruas, perseguimos voto à voto, e celebramos, como nos era de direito, “uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval…”. Mas ele passou e, como é costumeiro, levou junto nossos sorrisos. De outubro pra cá temos visto a implementação da agenda da direita, justamente a derrotada nas urnas, com a preservação dos privilégios e a exploração das camadas baixas.

Seria correto afirmar que a resposta para a questão que nos atormenta é que vêm da Presidenta e, em última análise, do Partido dos Trabalhadores os socos que estão nos levando à nocaute? Em parte, sim. É preciso pontuar, com clareza, que era possível reconquistar as ruas e o Povo Brasileiro com alianças fortes e verdadeiras com os movimentos sociais e demais grupos da sociedade civil. Se na mão direita havia o poderio econômico e a estrutura desigual em que fomos forjados, na esquerda encontramos a força popular que pode recobrar a utopia e a coragem de transformar a realidade que está posta.

Mas perdoe-me a franqueza, é um ledo engano acreditar que a decisão pela mão direita se deu há pouco menos de um ano – ou de 12. É nas origens da Terra de Vera Cruz que encontramos as colunas de nossa sempre presente oligarquia, do desequilíbrio pungente, da exploração lancinante. Não é de hoje que nosso grito padecido banca, às duras penas, as orgias do Palácio de Versalhes. É por sempre atacar as pessoas, os partidos, os movimentos e os grupos, mas nunca o glorioso e divino sistema fundante, que permanecemos soterrados na lama e cada vez mais asfixiados. Não são os políticos, simplesmente, meu caro amigo, mas todas as paredes dessa Catedral que insistimos em deixar de pé.

Mas assim como a frustração, a embriaguez da vitória também obnubila a visão. Qual esquerda, em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo da história, não foi vencida por sua própria incapacidade de perceber que a revolução, ou transformação da realidade, não acontece sem uma forte conscientização política das diversas camadas sociais, uma quebra do elitismo intelectual e imersão da teoria na prática? Como dizia Gramsci, essa formação das massas populares deve preceder a tomada do poder, pois “uma revolução não se faz apenas com vanguardas”.

Em 2002, portanto, quando assistimos com lágrimas nos olhos a chegada do Partido das Massas ao trono presidencial, agora ocupado por um torneiro mecânico capaz de espelhar a população que o saudava, não percebemos que a nossa estrutura voltada ao privilégio dos poucos permaneceria incólume. Cegos, não fomos capazes de traduzir que a famigerada “Carta aos Brasileiros” tinha como destinatário o mesmo grupo que por 500 anos deitou em berço esplêndido, ao som dos chicotes que sempre nos marcaram. Estava selado o nosso destino: nenhuma conquista social poderia encostar nas fortalezas inexpugnáveis do lucro.

Não é só quando não temos olhos que não sabemos aonde vamos.

José Saramago – Ensaio sobre a Lucidez

Os movimentos sociais, inebriados, acreditaram ter vencido a guerra, quando se tratava de apenas uma entre tantas batalhas. Infelizmente, parece-nos semelhante ao que os Bolcheviques vivenciaram em sua atrasada Rússia que, apesar da liderança e conhecimento de figuras como Lênin e Trotski, não foi capaz de aplicar a robustez teórica dos revolucionários. Seguiu-se o stalinismo como um corpo que se debatia perante a morte, contumaz em reconhecer a falência que o tomara. Estancamos nosso diálogo popular, nos inserimos nas estruturas burocráticas e perdemos a capacidade de mudança.

O governo petista é sim indefensável pela preservação do lucro em detrimento do povo, pela despolitização gerada pela educação bancária que mantenemos, pelo uso de setores cruciais de nossa administração como moeda de troca por apoio político, e por fim, pela traição latente que veio realizando desde que ingressou no poder. Entretanto, suspeito que haja um desempoderamento por trás de toda a crise política que assistimos.

Percebo que o poderio econômico, enfim, conseguiu se espalhar por cada peça de nossa engrenagem e emperrar qualquer movimento que não seja de seu interesse. Em outras palavras, não me parece difícil acreditar que Dilma pode ser uma mera Rainha da Inglaterra, nas mãos dos “poderes obscuros e invisíveis” queixados por Jânio Quadros. O agente duplo que poderia implodir o sistema estava fácil de cooptar: o PMDB, eterno lacaio, estaria disposto em furar o próprio barco e fugir nos botes que restaram.

A solução, portanto, não está com Dilma nem com sua queda, esse jogo de Deus e Diabo que só beneficia os anjos que permanecem incólumes em suas nuvens. É mais uma vez o povo, com uma formação de base contra-hegemônica, com consciência de que é preciso soçobrar as colunas do sistema, mais uma vez com força e coragem para sonhar um mundo novo, mas com a consciência que a alteração da realidade se dá a passos curtos, que deve assumir seu papel de agente de mudança. Só uma articulação social com bases sólidas será capaz de desmantelar o golpe que já aconteceu.

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