O Indescritível Mundo dos Invisíveis

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‘Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer?’ 

Walter Benjamin

Um dos posicionamentos centrais da obra de Walter Benjamin é, certamente, a perspectiva histórica dos vencidos. Parte-se da apreensão de que o passado chega até nós sob o ponto de vista dos vencedores, ao passo em que os derrotados são jogados ao ostracismo e, em última análise, à própria inexistência. A constatação desta realidade, então, resulta em um questionamento: em nossa história, quem são os vencedores?

O caso do Brasil é certamente peculiar, mas não único ao redor do mundo. Tomado pelos portugueses que aqui desembarcaram, nossa identidade fora construída com muito sangue e sofrimento: o extermínio dos índios que aqui estavam; o esbulho das terras pela nobreza europeia; o extrativismo predatório de nossos recursos naturais; a escrivadão de negros por mais de três séculos; a exploração de imigrantes; a concentração de riquezas, seja nas mãos da realeza, seja nas mãos da burguesia; e recentemente, uma brutal Ditadura Civil – Militar que perdurou por vinte e cinco anos.

Isso para dizer o mínimo. Apesar dos recentes avanços sociais alcançados nos últimos doze anos, tendo a elevação de cerca de 40 milhões de pessoas que viviam na extrema miséria como ápice, são incontáveis as vezes em que fomos assaltados, humilhados, massacrados, explorados e exterminados para a garantia de privilégios de uma elite que detém seu poder pela manutenção de uma desigualdade abissal, e que não se abstém de utilizar dos mais cruéis mecanismos para proteção própria.

Certa feita, afirmou Saramago que obscena não é a pornografia, mas sim a fome. A imposição de miserabilidade como instrumento de lucro, para além de um crime ético, é em si um processo de desumanização: aos opressores, surge a fantasia de uma condição sobre-humana; aos oprimidos, a completa descaracterização da condição humana, como o Fabiano de Vidas Secas que via a si próprio como bicho.

A existência perfeita para a classe dominante – e como é próprio da hegemonia, com expressiva adesão da classe média – está fundada num simulacro, qual seja a ilusão de uma realidade sem a presença do próprio lixo que produzem. Da desumanização dupla surgem também dois mundos: um em Monte Carlo, onde a luxuosidade o define como “real”; outro em Nova Deli, rincão dos invisíveis.

Com a devida separação entre as realidades, nenhuma tentativa do mundo baixo em adentrar a realidade elitista será tolerada. Historicamente, isso mais uma vez se dá de duas formas: a primeira, mais tímida e não-recorrente, está na ascenção econômica e social de grupos oprimidos, alcançada após profunda resistência; a segunda, até certo ponto habitual, a da reação violenta.

Não é comum que negros, índios ou pobres – e esta lista não é exaustiva – ocupem lugar de destaque nos noticiários, livros e eventos. Exceto por uma condição: o cometimento de crimes, a prática de violência ou de qualquer outra atitude que degrade ainda mais sua já infeliz posição. A maior visibilidade alcançada pelos esquecidos serve de legitimação para a própria divisão de mundos. São enxergados apenas para lembrar o porquê de terem sido esquecidos.

Como a irresponsabilidade é um caminho mais fácil que o engajamento na transformação da realidade, a sociedade de classes cria, arma e incentiva os inimigos que logo mais irá punir. Trata-se de um sistema de retroalimentação infindável, onde tanto mais invisíveis são gerados, mais cresce a sede de exterminá-los concretamente.

O ressentimento de classe incrustado na elite é gerador de paranoia. Arregimentados por um general invisível, permanecem como sentinelas de uma realidade inventada que a qualquer momento pode ser invadida pelos bárbaros – aqueles que finge-se não existir do outro lado de suas muralhas. Condomínios fechados, shopping centers e camarotes materializam o temor constante de estarem em contato com o outro.

Entretanto, um cenário devastado é também fonte de esperança. Quando as bases estão decaídas, as fontes secas e da terra já não é capaz de brotar uma flor; quando as mão estão duras feito rocha, o ânimo é apenas lembrança de um passado distante e o cheiro violáceo de morte invade o espírito; há de se lançar para a ressurreição. De toda a dor acumulada e lágrima caída surge o tempo de reinvenção dos invisíveis, marginalizados e oprimidos.

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