Teimosia

 

Passeata pelas Diretas Já
Brasil, São Paulo, SP. 26/04/1984. Populares fazem passeata em favor das Diretas Já, movimento civil de reivindicação por eleições presidenciais diretas no Brasil, pelas ruas de São Paulo, em 1984. Foto: Alfredo Rizutti/AE Pasta: 56.257 – Crédito:ALFREDO RIZUTTI/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Codigo imagem:67110

Antes de dormir, passei um bom tempo observando o mundo que se desfazia lá fora. Era uma noite chuvosa, escura, onde o sopro gelado que dobrava a esquina e invadia meu apartamento tinha sabor de tensão. A Lua, escondida por entre nuvens pesadas e cinzentas, parecia nos falar que já não tinha coragem de enxergar o que ocorria aqui embaixo. De frente para mim, uma rua indiferente, uma luz que se apaga, um cachorro que foge e um silêncio que ensurdece.

Lá longe, a histeria coletiva se espalhava em quem julga estar vencendo um campeonato. Em casa, acuado, assistia tudo isso através das explosões intermitentes disparadas pelo noticiário, e como é próprio das torturas, me banhava em pavor no espaço de tempo entre uma e outra, imaginando a que momento retornaria o algoz. O absurdo e o irracional, verdadeiros germes do fascismo, agora irrompia de forma massiva, atacando um casal que passeava de vermelho ou um rapaz negro barbudo que caminhava para casa. Babando e fumaçando, raivosos procuram invadir o Palácio do Planalto, quem sabe para rolar cabeças em mais uma revolta burguesa. No ar, um cheiro de sangue que inebriava uns e atemorizava outros.

Me coloco a pensar em como dormiu o meu povo naqueles idos de Março, às vésperas do momento em que tanques de guerra saíram dos filmes para as praças públicas, e o som de balas e pancadas se materializavam a cada instante. Talvez, sonharam com o discurso de Jango sobre as reformas que estavam por vir, ou quem sabe sustentavam as esperanças que corriam de uma ilha guerreira um pouco mais ao norte. De manhã, então, a realidade avassaladora tomou seu lugar, destituindo a utopia e enterrando a fé. Eram discursos pomposos e fardas reluzentes que escondiam a destruição que assolava os locais por onde passavam.

Hoje, pela manhã, ouvi novamente o choro das Marias e Clarices, ao perceberem que o bloco que está na rua já não é o dos gritos de resistência. Se é verdade que a história se repete como farsa, as dores, angústias e desesperos retornam como onda: incontrolável e inesperada. Nossos filhos de outrora, ainda mal enterrados, parecem ser assassinados continuamente, como num looping infinito. Talvez esse seja o inferno apregoado pelos cristãos, essa circular miserabilidade que volta e meia nos assalta.

E o céu? Espero que ainda seja essa coragem do encontro combativo e das mãos dadas persistentes.

 

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