Coração Valente

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Tenho tantas críticas ao governo Dilma que nem consigo enumerar. Envolvido no modelo neoliberal de desenvolvimento, o programa em curso, principalmente no segundo mandato, oferece saídas de arrocho direcionado à classe trabalhadora, com medidas austeras aos já sofridos deste país e brandas aos poucos detentores do poder econômico. Estes retrocessos, portanto, são indefensáveis.

Todavia, olhar para a imagem da Presidenta Dilma Rousseff me enche logo de empatia e carinho. Essa mulher, que permanece caminhando de cabeça erguida diante de uma comoção odiosa que se levanta contra ela, tem, antes de tudo, meu respeito profundo e minha gratidão eterna. Mesmo com todos os erros políticos que podemos apontar, não temos contra sua pessoa qualquer suspeição acerca de práticas escusas, e isto deve ser também ressaltado recorrentemente.

Mas não é tudo. Quando ponho meus olhos em sua expressão firme, porém notadamente marcada por aflições e angústias mil, paro e me recordo dos relatos que ouvi acerca daqueles vinte e um anos de repressão militar. O direito à memória e a consagração do testemunho têm mesmo esse poder: envolver as novas gerações nas dores, agonias, sonhos e esperanças que marcaram nosso passado, para que o futuro, em nossas mãos, seja um lugar diferente. São esses os sentimentos que me vêm à tona na figura de Dilma.

Ali está uma mulher que, nos porões da ditadura, enfrentou seus torturadores com inquestionável bravura, não se dobrando à entrega de suas companheiras e companheiros, ainda que sob as mais terríveis violências. Dilma é também uma representação simbólica de nosso povo brasileiro, que para além das significações recalcadas de uma elite vira-lata, é sim um povo resiliente e corajoso, que encontra em cada esquina um novo motivo para sorrir.

E é assim que continuarei enxergando Dilma. Nossas divergências conceituais e programáticas não constituem nenhuma razão para destituir a reverência que faço ao seu nome. Sei bem que, naquelas longas noites de desesperança, onde vida e morte se encontravam num único espaço, foi por mim que seus olhos perduraram abertos, e seus braços, com toda força possível, não se deixaram desabar. Se hoje posso te falar abertamente, Dilma, é porque no tempo do silêncio vil sua voz se quedou a ressoar.

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