A Esperança Comunista

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Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão. Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nesta fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo.

Eduardo Galeano

A vida humana caminha por uma trilha não linear. Nos primeiros momentos de existência, é natural que nossa percepção da realidade seja minguada, numa tendência a reduzir o universo aos pequenos espaços que somos capazes de observar. A humanidade, os parentes próximos; o mundo, o aconchego do lar; os sentidos do viver na saciedade de necessidades imediatas do corpo, como a fome ou o sono.

À medida que envelhecemos, o comum é que esse autorreferenciamento ceda espaço a uma consciência mais abrangente do que nos rodeia, num passo contínuo de descoberta da multiplicidade de contextos em que os tecidos sociais se desenrolam. Do encadeamento entre a apreensão do passado e a conjuntura presente nascem as crises existenciais, período de extrema fertilidade em que a quebra de certezas incutidas no âmago do ser faz brotar um jardim de dúvidas, sonhos, angústias e esperanças, elementos indispensáveis para a transformação que ansiamos, dependemos e carecemos.

Não existe amanhã sem um hoje marcado pela incerteza, essa que muito embora possa retirar o sono e o sossego por tantas vezes, é a fonte inesgotável da capacidade de construir um mundo a nossa volta, algo que Paulo Freire amavelmente chamava de nossa vocação ontológica, e que, reiterando Sartre, denotava como decorrente da impossibilidade humana de se eximir da decisão, já que consciente de sua própria existência.

Porém, esse processo emancipatório de colocação no mundo, de assunção da liberdade e responsabilidade advindas de nosso papel enquanto agentes históricos, só acontece através de rupturas. Por mais que a dinâmica cotidiana tente alargar nossa intuição do real de forma gradativa, conforme passamos a ocupar maiores espaços sociais , não é possível adquirir autonomia sem o trauma de sermos lançados para fora de uma posição confortável, sem o espanto de perceber que nossos selos de humanidade, como diria Camus, foram todos rasgados. É necessário que nos vejamos nus e expulsos do paraíso.

O fato é que determinadas estruturas sociais – que não por acaso costumam agir de maneira interligada – se mostram bastante interessadas no impedimento dessas incisões. Discursos piedosos são construídos no sentido de evitar a libertação causada pelo alcance de nossa visão sobre a realidade social, lançando mulheres e homens ao enclausuramento de uma vida individualizada e reduzida aos pequenos espaços da infância.

A produção dessa alienação faz imergir em ideologias como a autonomia individual, para a qual somos os únicos responsáveis pelo sucesso próprio; a da propriedade privada, como se existisse um direito eterno conferido a alguns poucos sobre a totalidade de bens; família monogâmica heteronormativa como núcleo social absoluto, composta pelos únicos seres a quem devo importância; e a da condição pecaminosa original, que afirma nosso fado ao fracasso.

Cada qual a seus postos, o capitalismo globalizado e as religiões fundamentalistas envolvem cada vez mais pessoas num simulacro de vida restrita, o inferno de uma infância eterna por serem incapazes de olhar mais além, de enxergar algo que não o eu e de construir socialmente os rumos da existência. Marca-se o fim da história, como se desigualdades e opressões ou fossem inexistentes ou condições naturais eternas. Atolam a criatividade humana em certezas inflexíveis, mas que ao mesmo tempo são falsas em si mesmas.

O segredo está em reprimir as possibilidades de que a já citada vocação ontológica possa se desenvolver, e assim, quebrar os grilhões que barram nossos toques de mão. A ilusão que vendem funciona sob a lógica da loteria, que ao pretexto de oferecer riquezas fáceis, deixa a imensa maioria dos participantes aguardando seu lugar ao sol – ou, ao céu – sem que percebam o absurdo disso tudo. Ou não nos fazem crentes de que a vitória chegará, seja nessa ou noutra vida?

Acontece que a força da consciência, do mover humano rumo à emancipação, é insuperável quando os braços se juntam em prol da transformação. O amadurecimento que sobrevêm da ruptura está na apreensão de que não estamos soltos, desgarrados, em nosso estar no mundo. A esperança comunista é isso: o sentimento coletivo de que, em todos os tempos que injustiças e escravidões forem empreendidas, sempre buscando nos marcar com essa cegueira existencial, a luta conjunta possibilitará um outro mundo.

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