A discreta face da burguesia

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Uma burguesia dependente não é só instrumental para com seus interesses conservadores ‘nacionais’; ela também é instrumental para com os interesses conservadores externos, ‘internacionais’, ou seja, ela atua em permanente aliança com o imperialismo e dele recebe parte de sua força econômica, cultural e política. Na gloriosa ‘partilha do mundo’, cabe-lhe o papel de feitoria.

Florestan Fernandes

A identificação da realidade concreta da sociedade de classes brasileira – de sua formação à situação atual – sempre foi um problema para as esquerdas que, por anos, patinaram entre conceitos enlatados e importados de fora. Mesmo a esquerda que se dizia marxista, materialista, caía na tentação de encaixar o desenvolvimento histórico da Europa ao daqui, o que evidentemente resultou em análises bizarras e, consequentemente, em estratégias e táticas sem incidência prática.

Sorte nossa que alguns pensadores se levantaram contra esse modelo, se atentando para as especificidades e peculiaridades de nossa formação histórica, e dentre eles destaco Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, buscando me concentrar no segundo. Basicamente, o que dizia Florestan era que nosso processo histórico desaguou em um capitalismo periférico e dependente, que orbita entre os interesses do capitalismo central.

Nessa condição, a busca por uma “revolução burguesa”, tal qual as do século XVIII, não faz sentido, pois nossa burguesia se encontra subservientemente vinculada à burguesia estrangeira, e qualquer espírito de revolução democrática e nacional carregaria o risco de uma tomada de poder pelo Povo. A ela só cabe estender concessões até certo ponto, e depois tomar de assalto todas elas por razões contrarrevolucionárias.

Mas qual a motivação de se invocar Florestan ainda hoje, passados anos desde suas formulações? É que a derrota do ciclo do PT e a retomada do clico neoliberal no país impõem uma necessidade histórica de reanálise, de reestruturação dos projetos políticos, e, principalmente, da identificação do inimigo concreto – e aqui não se está falando de um maniqueísmo raso e tolo. Definir a real face da burguesia brasileira é parte essencial da tarefa de construir uma revolução brasileira.

Quem olha nos olhos dessa classe enxerga um amálgama de crueldade e covardia. Na condução de seu “Estado-Feitor”, como dizia Florestan, retiram da imensa maioria da população direitos básicos para a sobrevida, não se constrangem em abater quaisquer tipo de conquistas para garantir que o bolo seja devidamente repartido entre eles e os de fora. A crueldade burguesa é manifesta nesse fascismo pulverizado, que de maneira insidiosa corrói nossas estruturas sociais e explode em violência para com os de baixo.

O salário continua a ser pago apenas no limite das necessidades básicas, que permitam ao trabalhador continuar produzindo; a educação que oferecem permanece bancária, como apontava Paulo Freire, para que o ensino seja estritamente tecnicista e mecânico, sem possibilidade de uma abertura de consciência libertária. O direito penal é cada vez mais repressor, para que as penitenciárias sirvam como bolsões de miséria e escondam de nossa sala requintada toda a feiúra da pobreza – e as periferias se alastram sob a mesma lógica.

Com todos esses mecanismos, seria fácil concluir pela crueldade e desumanidade da face burguesa. Mas o que se oculta, discretamente, é o outro lado da moeda: sua covardia. A burguesia é frouxa pois se vê entre duas lâminas afiadas, que ameaçam cortar seu pescoço. De um lado, o controle estrangeiro que lhe coloca de joelhos e determina, a chicotadas, os passos, os preços e os prazos de suas ações; do outro, a incontrolável, porém ainda tímida, massa trabalhadora, que de tempo em tempo sinaliza uma revolta avassaladora. É nessa constante tensão que o burguês toca seu projeto covarde, dependente e entreguista. Jamais cortando as cabeças dos reis.

E tudo isso diz muito sobre nosso momento atual. Que mais está sendo implementado pelo governo golpista, senão o desmonte de todas as nossas riquezas e estruturas nacionais? A entrega do Pré-Sal às multinacionais e a consequente relegação da Petrobrás, o sucateamento total do SUS, a destruição da Universidade Pública, o desmantelamento das leis trabalhistas, todas essas conquistas históricas da classe trabalhadora que agora se esvaem como pó de nossas mãos. Daí se manifesta as duas faces, cruel e covarde, de uma burguesia que retirará todas as condições e esperanças de um espírito revolucionário.

A premissa de Marx, portanto, continua em voga. A revolução brasileira deve colher sua poesia do futuro, e não do passado. É no horizonte e na utopia que encontramos o terreno fértil de nosso refazimento. Da luta e do sangue passado, bebemos a coragem e a força para destronar nossos senhores. Da vitória e da paixão do futuro, nos saciamos da esperança e da certeza de uma nova história. É a morte que se aproxima, mas não um ponto final; morte como possibilidade de ressurgimento. Morte que dá outra vida. Avante!

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