Alquimia ou Revolução?

alquimista-fosforo

[Os alquimistas da revolução possuem o] mesmo pensamento caótico e as mesmas tacanhas obsessões dos alquimistas do passado […] se agarram a invenções que supostamente realizam milagres revolucionários: bombas incendiárias, artefatos destrutivos de efeito mágico, revoltas das quais se espera efeitos tão mais milagrosos e surpreendentes quanto menos racional é sua base.

Karl Marx e Friedrich Engels

Perpassar certa tradição marxista e desaguar numa atual compreensão da esquerda, notadamente brasileira, é um desafio em que me lanço sabendo bem do alto risco de cometer erros indizíveis. Em matéria de palavras, e sobretudo, de política, segurança em céu de brigadeiro nunca surgiu como opção.

A grande questão que nos colocamos é que a profundidade do impacto causado por Marx na ciência como um todo não pôde deixar de lado a forte tentação, sobre a qual considero ter sucumbido parte da corrente marxista, de criar uma ortodoxia, um dogmatismo, que se arvora como verdade inquestionável independente de. As importações das análises especificamente europeias, a disputa pelo mais puro seguidor de Marx, e a própria elevação deste em guru inerrante, comprovam o que aqui sugerimos.

Este problema me parece ser um problema de método. Nem Marx, tampouco Engels, pretenderam formular uma análise universal que se aplicasse a toda história da humanidade – como pensaram, e novamente a história é fatal em apontar o erro, os envolvidos na III Internacional -, como se pudéssemos ser enquadrados no modelo etapista do desenvolvimento europeu. Ao invés disso, o grande legado de ambos foi o método de análise, chamado de materialismo histórico.

Falo disso para talvez compreender onde estão os erros que nos fazem patinar nesse grande lamaçal que é o Brasil de nossos dias. De um lado, uma direita cada vez mais engrandecida em todas as estruturas e mecanismos de poder, com capacidade e disposição de impor seus interesses de classes através de uma violência encobertada e legitimada sobre o aparato jurídico; do outro, uma esquerda ressacada, cindida e desconectada da única fonte de sua força: a classe revolucionária por excelência, o proletariado.

No meio da algazarra criada pelas diversas correntes da esquerda que esbravejam soluções quando sequer identificaram os problemas, uma em particular me chama a atenção pelo perigo que seu fundamento carrego. Chamo-a da esquerda do “pressuposto lógico”, ou do “pressuposto da verdade”, para a qual as ações praticadas pelos organismos sociais devem obedecer uma lógica estabelecida – em suas cabeças, claro, mas que pensam estar colocada de forma universal.

Basta participar de qualquer tipo de plenária aberta com participação de indivíduos de diferentes organizações de esquerda, e principalmente, dos não orgânicos, para ouvir perguntas como “por que não fazemos uma greve geral”, ou, como já tive a oportunidade de pessoalmente escutar, “por que não invadimos o Congresso Nacional”? A grande questão é que boa parte dessas pessoas pensa se pautar em uma cosmovisão materialista e histórica da vida, sem se tocar que reproduz o primeiro inimigo pessoal de Marx: o idealismo.

Na realidade, essas pessoas partem do pressuposto de que é óbvio, lógico e inquestionável que a classe trabalhadora está consciente da necessidade de se realizar uma greve geral, e o grande problema que enfrentamos é um problema de organização. Como se uma paralisação de nível nacional dependesse de um evento no facebook ou de uma simples convocação em massa; e as condições objetivas, materiais, onde entram nessa história?

Dessa forma, se uma parte da tradição marxista do século XX deslizou num dogmatismo que inviabilizou a percepção dos diferentes processos históricos, vemos hoje uma outra parte, supostamente materialista, que se afunda em um delírio organizativo infantil, se equiparando aos que os próprios Marx e Engels denominavam de “alquimistas da revolução”.

Um passo atrás, eu diria, é preciso ser dado. Antes de propor e cobrar uma greve geral, é preciso descobrir: quais os reais interesses da classe trabalhadora? Qual debate está colocado na sociedade? Como podemos explicar o abandono dos pobres aos projetos mais aproximados das questões sociais, para dar lugar ao fundamentalismo religioso, à extrema-direita fascista e até mesmo a discursos de um liberalismo raso e mal configurado?

Nada disso parece saltar aos olhos. Aos “ultrarrevolucionários”, a questão organizativa e a agitação radical são os elementos cruciais da construção da revolução social que já é iminente. Não pretendo chover no molhado, mas um professor certa vez me disse que o óbvio, por tantas vezes, é o mais difícil de se enxergar. Então lembremos: não existe luta de classes sem classe. Ou como dizia Gramsci, “uma revolução não se faz apenas com vanguardas”. Se a ação revolucionária depende da assunção do papel pelo sujeito, ainda composto essencialmente pelo proletariado, como acreditar em um movimento não massificado?

A gravidade dessa desconexão com a realidade impressa na sociedade gera distorções na análise, na estratégia e na ação. Por trás de cada bordão, repetido ad nauseam, se esconde uma ingenuidade que para Florestan Fernandes, já nos anos 70, levaria sempre à vitória da contrarrevolução. Em todo o purismo, que ao redor só consegue enxergar o “espectro burguês”, mora o erro de acreditar ser possível negar as contradições postas, ao invés de compreendê-las e explorá-las.

Tudo se reduz, então, a um projeto messiânico de salvação, que deve jorrar dos céus a qualquer instante, sem base empírica na realidade mas por uma abstrata justeza da causa – o pressuposto lógico que transforma desejo em dever. Não é mais a ação revolucionária, exercida pelos sujeitos de forma massificada, quem construirá outra sociedade, e sim o milagre divino que fará descer à Terra a Nova Jerusalém. De militantes à missionários, de teoria à profecia, de realidade à negação. Por ironia nietzschiana, chamarei esta de uma verdadeira esquerda niilista.

Já os progressistas da socialdemocracia – e haja esforço para requentar essa corrente -, a segurança ainda sobrevirá das urnas, dos mecanismos institucionais, e até mesmo, pasmem, da segurança jurídica. Só que as respostas são inaudíveis quando as perguntas sequer foram feitas. Nisso persiste a forma anacrônica com que Weimar e Keynes continuam a serem invocados e revela que não só a realidade está sendo negada como a própria história.

O que se espera do desenvolvimento pelo consumo e dos direitos sociais que estes já não tenham gritado não ser possível entregar? Em termos de Brasil, a última década é crucial para a percepção de que esse projeto de avanços negociados tem no horizonte uma neutralização da questão central, ou seja, a questão da tomada do poder. Às duras penas, talvez ainda tenhamos que aprender que liberdade não se ganha nem se transfere, mas se cria através da conquista. Para isso é preciso consciência, vontade e elaboração, o que implica em rupturas doídas.

Esse parece ser o fim de algumas esquerdas, mas não o fim da história. Das derrotas seguem-se os recomeços, do desalinho a reestruturação. O que foi não é o que será, como pensou o poeta, pois num mundo nem de Deus nem do Diabo, sim, tudo é possível. Estamos sós e desamparados, com certeza, pois nenhum mandamento ou justiça irromperá do além. E esta não é uma fraqueza, pois se lá fora não há qualquer força condutora, é porque essa força está em nós.

Anúncios

Seria um prazer se você deixasse um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s