Vésperas de Novembro

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Novembro vem vindo e permaneço aqui, calado. Contando meus dias, pergunto: que fiz de mim? São noites sozinhas, recantos empoeirados e uma bagagem que se acumula sem que eu consiga reagir. Acordo de súbito, olho ao lado e lá se foram três horas, três dias, três anos. Não tenho mais pressa. Deixo que a vida passe por mim enquanto assisto de fora, ausente. Permito que o nada escolha o que minha covardia não deixa apontar. Ouço o som dos meninos e meninas que ao longe brincam de bola, e imagino se só nos sonhos mais incríveis de infância é que liberdade se respira como ao ar.

Mas logo será novembro. Lá fora floresce enquanto, em mim, adormeço. São memórias repetidas, sem sentido, que se projetam à frente para onde quer que eu olhe, pense, mova. Os móveis se distanciam e levam com eles os sentidos que arrisquei acreditar ter construído até aqui. Vejo as sombras do que persegui e que por fraqueza não alcancei. Sinto o gelo partir cada dedo de minhas mãos, e esmoreço, constrito, no chão duro que sobrou para deitar. Os livros empilhados oprimem e as paredes parecem se apertar.

Todo novembro é um abismo que irrompe aos nossos pés. Daqui, sofro por antecipação, ansiando a chegada de minha derrota. Fico em silêncio para não espantar pequenos prazeres, instantes em que o sopro quente do aconchego perpassa a nuca, alivia, e já segue seu rumo pra longe. Vivo, mais por sentir que por pensar, intuo que o temor da morte é inexplicável, se por tantas vezes já morremos e nascemos outra coisa.

Talvez novembro espere isso de nós. Uma entrega, um deixar-se cair no mistério sombrio que nos seduz. No fundo, talvez, apenas uma aceitação. Que da falta espremamos o suco da incompletude. Que do mundo desfocado que nos rodeia surja a beleza do incompreensível. Que a batida em retirada não seja vergonha e sim coragem. Dos medos, das dúvidas e ameaças, a sabedoria de estabelecer os limites do que somos. Da culpa, suceder o reconhecimento de que as fraquezas nos destroem para fora e constroem para dentro. Ainda queremos dinamitar a Ilha de Manhattan, mas já não para sorrir às cinzas em que nos refletimos.

É novembro e a vida brota, teimosamente, nos vazios que existem em nós.

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