Das mãos que erguem o mundo novo

fidel

Houve um vazio. Inusitado constatar isso com ar de surpresa, já que o nada tem sido fiel companheiro de homens e mulheres por toda essa caminhada. Mas o tom deste silêncio era diferente, como se todo o ruído do mundo subitamente se interrompesse, os objetos se afastassem e os sentidos escorressem pelas mãos. A visão do abismo em que nos deparamos soltos, desgarrados de tudo, causando espanto.

Ninguém sozinho é capaz de mudar a história. Alguns, porém, assumem para si a habilidade e a responsabilidade de desbravar novos rumos, e, como uma chama trépida, por tantas vezes vacilante, nos guiam rumo ao desconhecido. São esses que nos conectam entre si, plantando a ideia que nos norteará e apontando nossas mãos como fazedoras da vida, de tudo que se foi, se fez e que virá. Mãos que erguem um mundo novo.

Fidel Castro, o comandante da Sierra Maestra, foi um multiplicador de pães, peixes e esperanças. Com seu próprio sangue, conduziu o resgate dos sonhos distantes, que pairavam nas nuvens, trazendo-os para o concreto instante do agora. Era a poesia do futuro que encarnava em cada pedaço da existência. A consagração de todas as lutas por libertação, em todos os tempos. Anúncio de uma outra realidade possível.

É de se entender todo o estranhamento que nos assalta diante de sua morte. Novamente, os cínicos fatalistas nos vêm dizer que morreu não um homem, e sim a história; que o fracasso é o saldo da tentativa de emancipação; que as mãos que tateiam liberdade nunca a alcançarão. Nossa reação, entretanto, deve carregar a altivez dos que têm firme na consciência que o processo de transformação permanece, de uma forma ou de outra, retirando o sono e o controle das minorias que roubam nossa identidade. A ilha é uma porção de resistência cercada de coragem por todos os lados, e dessas águas inesgotáveis bebemos a força para seguir.

A morte, porém, não significa seu fim. Não porque tenha transcendido, pois nem deus nem diabo, nem céu nem inferno, dão conta de abarcar a profundidade do espírito humano. Era homem, pois a ele também foi colocada a condenação de escolher e errar – e isso o distancia de qualquer ilusão superficialmente heroica. Mas foi da exata percepção de que esta vida é o que há que conseguira compreender a urgência de levar o sopro da existência aos que têm estado, historicamente, presentes porque vivos, mas mortos para toda autonomia, excluídos de toda atividade criadora.

Sua permanência teimosa, e necessariamente incômoda, se dá em cada gesto de rebeldia, cada movimento de transformação, cada grito de liberdade. Fidel viverá eternamente nas incansáveis palavras aguerridas que teve a coragem de dizer – e que persistem ditas -, na memória histórica e afetiva dos povos que ainda conspiram a rebelião final. Seguirá pairando como fumaça, prestes a arder novamente em cada coração ligado a esta luta que, enfim, nos reconstruirá para sempre.

Pátria Livre, Venceremos!

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