Meia Luz

2mona

Do abismo que avistamos é que vem o medo e a paralisia que assalta corpo e alma. Há ainda o espanto, esse impulso que nos desperta compreensão e agonia. Um coração que palpita, as leves gotas de suor que se espraiam sob a testa franzida, e aquele olhar negro e relutante, que engole tudo e ao mesmo tempo se afasta.

Aqueles eram dias confusos e apressados, em que o cheiro doce das manhãs durava pouco, e logo dava lugar ao mormaço que oprimia. Os ponteiros giravam ávidos, comendo a vida e deixando na pele sua marca inconfundível. Do concreto às cinzas, do material à ilusão, as seguranças que acreditávamos tatear já estavam todas no chão. Era dor, e nos foi negado o grito.

Mas houve um momento em que, por alguns instantes, todo o mundo parou. Os carros que passavam inquietos já não se ouviam mais, os outros sequer existiam e mesmo as horas, invencíveis adversárias, deram trégua. Um momento que vez ou outra temos a sorte de nos deparar. Com um brilho tímido de lua se percebia que os pecados, no amor, eram em tudo perdoados, e os ouvidos atentos só se encantavam com a voz terna de Caetano e o seu louco querer. O ar tinha um cheiro de mistério, mas era nos lençóis que se imprimia um sabor suave e ao mesmo tempo intenso, desses que permanecem na boca deixando saudade.

Era provável que os corações se refletissem nas sombras do desgosto e criassem, daí, alegria? Não se acreditava, mas foi assim que quebramos a dureza do tempo e encontramos as tantas faces que esquecemos nos espelhos. A poeira desse amor elevou às alturas o que já era morte e escuridão.

Só que nada que renasce permanece o mesmo. Aquilo que torna a viver não consegue esconder os tantos detalhes que surgem, inesperadamente, por todo seu ser. O gesto que se repete tem novas formas e sentidos; um beijo que é o mesmo, mas nunca igual. E de repente, salta aquele riso à toa que vem avivar a cena, ou um encostar no canto da parede para sentir a brisa de uma vida leve, como se o amanhã e suas aflições fosse um lugar distante e inatingível. Aquilo que era, que se refaz, e que não se permite mais estrangular.

Aprendemos a colorir os dias tristes que a vida jogou para nós. Aqueles quadros de sofrimento poderiam, então, ganhar novos significados, e era possível perceber, para nossa surpresa, beleza mesmo na felicidade. A vida não precisava ser esse grandioso evento, cheio de pompas, cortejos e condutas corretas, mas sim, um se jogar no mar de roupa e tudo. E talvez ela aconteça apenas nesses momentos em que não controlamos a última dose nem evitamos nos entregar ao que faz bem.

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