Flor no campo

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     ‘Amor demais é veneno’. Ouvi essa frase. Parei. Refleti. Inevitavelmente, lembrei-me da célebre peça shakespeareana em que o amor do casal, a pressão de famílias contrastantes e a ansiedade da paixão fatalmente culminam na morte de ambos. Julieta e Romeu viviam realidades opostas, a probabilidade do amor florescer no centro do campo de batalha era ínfima. Ainda sim, ele encontrou uma maneira de fincar suas raízes e gerar vida ao revés da morte. O amor improvável nasceu. Acontece que apenas duas pessoas tiveram a sensibilidade de interromper a peleja para colher a flor que desabrochara. Enquanto esses se agachavam e buscavam caminhos mais viáveis, a guerra ao redor se mantinha travada. O resultado todos já sabem: a confusão os levou à sete palmos abaixo da terra.

     Pensei também na vida de Jesus, no Deus que se fez homem, que veio à terra cultivar novos jardins, promover a vida, exaltar o amor, incentivar a compaixão. O Deus da kenose, que se esvaziou por amor. Novamente, foi a incompreensão e insensibilidade, tal qual a dos Montecchio e Capuleto, que assassinaram o inocente. Quando olho a vida do Nazareno, me vejo propenso a acreditar que sua vida foi a maior dádiva recebida pela humanidade, e sua morte foi a resposta de um mundo que anseia pelo ódio e cultiva o egoísmo. A cruz, nessa ótica, é a mensagem do amor levada às últimas consequências pelo Cristo que chorou sangue e pediu misericórdia, mas não se entregou aos apelos do mal. Abraçou o amor mesmo na morte.

     Felizmente, a segunda história possui um final diferente do criado por Shakespeare. Ao terceiro dia, a pedra rola e o amor mais uma vez, com a humildade da pequena flor no campo de batalha, triunfa, encontrando outra forma de florescer. O Cristo ressurge não para vingar-se de seus algozes, mas para transbordar de esperança o coração dos sensíveis. Alguns precisaram de um gole a mais de fé para crer que o amor é capaz de vencer tudo, inclusive a morte.

     Então sim, concordo que o amor demais é veneno, mas, para nossa felicidade, nem mesmo a morte o vence.

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